O guri, a sucuri e o cri-cri

30 Outubro 2007

Essa aconteceu semana passada, e foi noticiada pelo Noblat e pelo Josias.

O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) deu uma festa, com a presença de várias figurinhas carimbadas da sociedade política, tanto do governo quanto da oposição.

Durante a festa, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), que também é presidente do seu partido, aproveitou a ocasião para ter uma conversa com o ministro Walfrido Mares Guia. O assunto era o jogo sujo que o governo vem fazendo para tentar aprovar a prorrogação da CPMF.

Entre outras coisas, Rodrigo se queixava, principalmente, das ameaças e promessas de “agrados políticos” que o governo fez às senadoras Rosalba Ciarlini (DEM-RN) e Kátia Abreu (DEM-TO), relatora da emenda na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Disse o deputado carioca:

- Não vou permitir mais esse tipo de comportamento do governo. Todo dia vejo notinhas plantadas na imprensa sobre a senadora Rosalba. É bom que comecem a nos respeitar.

Mares Guia mostrou ser um bom subordinado de seu chefe. Jurou que não sabia de nada sobre o assunto. Maia prosseguiu, respeitoso porém firme:

- O que vocês fizeram na Câmara e estão fazendo no Senado eu nunca vi igual. Não é justo e não é certo. Se não fosse a decisão do Judiciário, favorável à fidelidade partidária, vocês teriam destruído o meu partido [...]. A fidelidade salvou o meu partido. Vocês iam tirar todo mundo. Me tenham como inimigo e vamos para a guerra. Não tem problema. Mas vocês estão jogando muito pesado, o que é um desrespeito às instituições.

É animador ver uma reação frontal dessas vindo do DEM, principalmente por acontecer ao mesmo tempo em que o PSDB dá mais um dos seus espetáculos de “governismo de oposição”. O repto de Rodrigo, em voz alta o bastante para ser ouvido (e vazado, óbvio), nos dá alguma esperança de que ainda possa existir oposição no Brasil.

Até aí a conversa era política. Dura, mas dentro dos limites. Descambou para o burlesco quando o ministro da Defesa (de Lula), Nélson Jobim, resolveu fazer juz à sua fama de “margarete” (aquele que em tudo se mete) e dar o seu pitaco:

- Quem joga pesado é você. Ainda outro dia botou no blog do partido uma foto minha me chamando de canastrão da sucuri! Isso é desrespeitoso e infantil.

Rodrigo não quis dar platéia ao can… perdão, ao senhor ministro. Apenas respondeu que não tem o costume de censurar os jornalistas que produzem o site, deu boa noite e foi embora.

Segundo contam Noblat e Josias, a conversa de Jobim e Walfrido continuou, pelas costas de Rodrigo:

- Guri de m*!!! – disparou Jobim.

- Ele pensa que é professor de Deus! – completou Walfrido.

- É um babaca. – finalizou Jobim.

É mais um sinal da maneira “respeitosa” e “republicana” com que os membros desse governo tratam aqueles que não curvam a espinha a eles. A democracia deles está no sangue.

A foto, acompanhada da legenda “o canastrão e a sucuri”, que fez o gaúcho Jobim cair na pilha como se fosse um menino de oito anos foi essa aqui:

Foto: Antonio Cruz/ABr

Sinceramente? Concordo em parte com Jobim. Talvez uma foto dessas pudesse fazer alguém merecer ser chamado de “babaca”. Mas, com certeza, esse alguém não seria o deputado Rodrigo Maia…


Quem disse que a vida é fácil?

26 Outubro 2007

Exame de Elite: Quem é você na guerra?


Repondo a verdade dos fatos

26 Outubro 2007

Quem acompanha o QsQ há mais tempo sabe que os textos sobre Fórmula 1 costumam atrair alguns fãs cegos do “menino prodígio” Lewis Hamilton. Para esses, qualquer crítica ao “novo gênio” é vista como um crime de lesa majestade.

Um exemplo claro disso aconteceu nos comentários do post sobre o GP Brasil. Nele, eu dizia:

Na descida do Lago, a McLaren de Hamilton apaga. Ficou claro o que houve: o inglês errou na posição do câmbio, jogou o carro em ponto morto, deixou ele morrer, e depois teve que recomeçar da primeira marcha. Mais do que um erro “de principiante”, um erro infantil de quem não estava com os nervos no lugar, mesmo com tudo a seu favor.

O céu caiu na minha cabeça. Os fanáticos mandaram ver. Como eu ousava insinuar que Lewis Hamilton, o escolhido, “the king of the world”, era capaz de errar? Ele é perfeito, ora. Seres da luz como ele não erram jamais. Só mesmo um invejoso fanático como eu para ter um palpite tão… singular.

Pois bem.

Lewis Hamilton admite erro em Interlagos:

O GP de Interlagos vai demorar para sair da cabeça de Lewis Hamilton. Além de errar e sair da pista logo na primeira volta, ao tentar ultrapassar seu companheiro de equipe Fernando Alonso, o piloto da McLaren confessou que foi um erro seu que causou a perda de potência do seu carro. A McLaren de Hamilton ficou quase um minuto se arrastando pela pista, caindo para o 18º lugar.

- Meu dedo escorregou no volante e apertei de forma acidental o botão usado para dar a seqüência de largada – disse o britânico ao jornal canadense “La Presse”.

- O carro ficou em ponto morto e tive que reiniciar o sistema, recarregando o controle da caixa de câmbio – completou.

Será que isso é suficiente, senhores fanáticos? Um pedido de desculpas cairia bem, não? Ou será que ainda vão continuar arrumando desculpas, dizendo que Hamilton não errou, apenas mentiu pra proteger a equipe, ou que tudo foi combinado para dar o título a Raikkonen?

É bem provável. Então, antes de comentarem, por favor, observem esta foto com atenção:

Este é o volante da McLaren de Alonso e Hamilton. Aquele botãozinho lá no canto superior esquerdo, com um “N” no meio, é o botão “neutro”, que coloca o carro em ponto morto.

Agora, vejam este vídeo:

OK, OK. Já sei. Isso deve ser montagem de algum espanhol, coisa do Marca, que só pode ser aceito por pessoas que só leiam jornais da Espanha, né. Então, que tal esse, mais completo:

É suficiente?

Fica a lição, aos leitores do QsQ: aqui não se fala nada que não seja apoiado ou em FATOS ou em opiniões
plausíveis, que muitas vezes acabam se mostrando
corretas. :-)

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Lembram da biografia do Hamilton? Bem, ela continua no mercado. Só mudaram a capa. Esta é a nova versão:

Nem vou comentar do sorriso forçado. Pra que chutar cachorro morto? Essa história da biografia do campeão-Porcina (o que foi sem nunca ter sido) já virou folclore. “King of the world”? Bah. Tu é moleque, isso sim…

O leitor Wosley Nogueira, do blog do Fábio Seixas, enviou duas capas alternativas:

E uma leitora fiel do QsQ sugeriu o que deveria ser feito com os livros encalhados: podemos compra-los, e mandar para o Hamilton autografar, um por um. E depois ligar pra editora, e pedir o dinheiro de volta, “meu livro veio com defeito, o final está errado”. :-)

Ah, e longe de mim criticar Lewis Hamilton pela farra na night paulistana depois da prova. Acho que o garoto está certíssimo em fazer festa. Afinal, quando na vida ele vai conseguir de novo chegar em segundo lugar num campeonato mundial? Tem mais é que comemorar mesmo. E aproveitar as torcedoras brasileiras que estavam por perto…

Falando nisso, perguntar não ofende: alguém viu Lewis Hamilton no Cemitério do Morumbi, visitando o túmulo de Senna, como anunciou aos quatro ventos que faria? Quer dizer então que o press release anunciando a visita era puro marketing, pra se mostrar simpatico aos brasileiros? Quem diria, né? Isso nem me passaria pela cabeça… Bah.


(Mais) Duas vergonhas do Congresso

25 Outubro 2007

Vergonha número 1:

Sessão de homenagem a Che Guevara critica ‘imprensa reacionária’

Para nossa imensa vergonha, o Senado do Brasil, aquela casa de tolerância com quem não tem decoro, aprontou mais uma. Eles tiveram a desfaçatez de fazer uma “sessão de homenagem” ao mercenário argentino. Quarenta e seis anos se passaram, e os brasileiros não aprenderam nada. Em quarenta e seis anos, só se andou pra trás.

Alguns destaques do dia:

“Esta sessão serve para honrar a memória do comandante, no momento em que setores reacionários da imprensa fizeram ataques contra sua história.”
(José Nery, PSOL-PA)

“Essa famigerada reportagem da Veja é uma atrocidade à inteligência.”
(Ivan Valente, PSOL-SP)

“É de uma estupidez o que a Revista Veja fez. Não podemos concordar e temos que repudiar a postura da revista.”
(João Pedro, PT-AM)

“Nossa juventude reconhece em Guevara a luta por uma sociedade com justiça social.”
(Manuela D’Ávila, PCdoB-RS)

“A Revista Veja fez uma matéria meio mal-cheirosa.”
(Chico Alencar, PSOL-RJ)

“Che vive no inconformismo e na vontade de mudança por um mundo melhor e mais justo, nas mais diversas sociedades e distintas latitudes.”
(Tião Viana, PT-AC)

O que os nobres parlamentares nos mostram com essas palavras é o profundo desprezo que tem pela democracia. Para eles, só a unanimidade. Eles têm o apoio de 99% da imprensa. Mas não é o bastante. Ditaduras só se conformam com 100%. E a Veja é a eterna pedrinha no sapato deles. Falar a verdade sobre o mito Guevara é um crime que merece os mais severos ataques. Assim como é um “crime” a Veja ser a revista que desmascarou Renan Calheiros. Por isso tantos ataques.

PT, PSOL, PCdoB. Não é apenas coincidência. São partidos que não conseguem esconder seu viés autoritário.

Vergonha 2:

Comissão da Câmara aprova adesão da Venezuela ao Mercosul

No mesmo dia da “homenagem” a Che Guevara no Plenário, acontecia na Comissão de Relação Exteriores da Câmara a votação sobre a entrada da Venezuela no Mercosul.

Para os que não se lembram, foi essa votação que fez o ditador Hugo Chavez dizer que o Congresso do Brasil era composto por “papagaios”, que tinham medo dos EUA, e por isso não aprovavam a entrada do seu país.

Ontem, o Congresso, mais uma vez, deu motivos para Chavez pensar que tem razão. O PT e seus aliados conseguiram aprovar o parecer favorável à Venezuela chavista, atropelando o artigo que proíbe a entrada de ditaduras na Associação.

Os números da votação são interessantes: 15 votos a favor, do PT e dos seus aliados, 14 contra (PSDB, DEM, PPS e alguns independentes) e 1 abstenção.

“Com a decisão, a Comissão de Relações Exteriores ratifica o protocolo de adesão da Venezuela ao Mercosul, assinado em julho do ano passado. Agora, a mensagem encaminhada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Câmara pedindo análise do protocolo se transforma em projeto de decreto legislativo e segue para a apreciação da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara e depois para discussão e votação no plenário da Casa. somente após esse trâmite o projeto vai para o Senado.”

(Folha OnLine)

Resumo da ópera: os mesmos que glorificam um assassino, votam pela companhia de um ditador. Como a Veja poderia ter dito, na matéria sobre El Chancho Guevara, “quem se mistura com porcos, farelos come”.


Campeão? Nunca será!!!!

23 Outubro 2007

É nessas horas que escrever num blog é muito mais gostoso que escrever num jornal. Num jornal, eu deveria começar o texto com um lead, falando como Kimi Raikkonen se sagrou campeão em interlagos, etc, etc, etc. Num blog, eu posso começar com a reação que eu realmente tive:

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!

E diria até mais:

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!

Pronto. Agora dá pra… hehehe… tentar falar… hehehehe… sobre o GP do Brasil.

Os deuses da F1 estavam de plantão em Interlagos. Eu nunca perdi a fé neles. A corrida decisiva do ano tratou de separar homens e moleques, e repor a verdade dos fatos.

No treino de sábado, para fechar a temporada com chave de ouro, Hamilton ainda fez mais uma molecagem, atrapalhando Raikkonen na sua volta rápida, e tirando a pole do finlandês. A FIA ficou quieta, uma vez mais. E os deuses sorriram, anotando mais uma na caderneta.

Domingo, na largada, as Ferraris pularam na frente. Hamilton largou mal, e permitiu a ultrapassagem de Raikkonen. Alonso, tendo que correr com um motor velho (ao contrário de Hamilton, que estreava um novo), perdeu a posição para Webber, e caiu pra quinto.

Mas, já na primeira curva, o Príncipe das Astúrias reagiu, e fez a manobra que decidiu o título. Se recuperou da largada, usou os últimos cavalos do motor, deixou Webber pra trás, e atacou Hamilton na tomada da curva, num ângulo quase impossível de passar.

Era apenas a primeira curva da primeira volta de uma longa prova. Mas quem ama a velocidade entende que ali se decidiria o campeonato. Alonso passou, com a sobriedade do campeão que é. E o moleque inglês perdeu o título ali. Deixado pra trás pelo seu maior rival, mesmo tendo um motor novo, 10 cavalos mais potente.

Homens e meninos.

Hamilton, que recorreu à trapaça nas últimas provas, sempre que se sentiu ameaçado, Hamilton, que errou bisonhamente na China quando Alonso tirou os 17 segundos que os separavam, Hamilton que, em Interlagos, sentiu mais uma vez o peso da humilhação, ao ser ultrapassado pelo asturiano. Desta vez, todo o peso do mundo.

Homens e meninos.

Alonso fez o que caberia a um campeão. Tomou a frente, sem tomar conhecimento de quem era o rival, e se posicionou em terceiro. À frente de Hamilton. O quarto lugar daria o título ao inglês. Mas um título onde ele terminaria a corrida atrás de Alonso teria um sabor amargo.

Homens e meninos.

E Hamilton tentou dar um troco. Tentou, apenas. Porque não é Alonso. Tentou, no lugar errado, na hora errada, da maneira errada. E saiu da pista. Com a sorte que sempre o acompanha, conseguiu voltar. Perdera algumas posições, mas seu carro era tão superior aos demais, principalmente à carroça que a McLaren deu a Alonso, que o título ainda estava ao seu alcance. Bastava não errar. Bastava provar que tinha fibra de campeão.

Homens e meninos.

Na descida do Lago, a McLaren de Hamilton apaga. Alguns metros depois, recupera velocidade, como se nada tivesse acontecido. Mais tarde, a McLaren, oficialmente, diria que houve um “problema mecânico momentâneo com o câmbio”. Alguns acreditam. Para outros, ficou claro o que houve: o inglês errou na posição do câmbio, jogou o carro em ponto morto, deixou ele morrer, e depois teve que recomeçar da primeira marcha. O próprio Reginaldo Leme, na transmissão da Globo, chamou a atenção para o fato de que a McLaren parecia que “pegou no tranco”. Mais do que um erro “de principiante”, um erro infantil de quem não estava com os nervos no lugar, mesmo com tudo a seu favor.

Homens e meninos.

A prova ainda estava no começo. Dirigindo uma McLaren, dependendo apenas de um quinto lugar para ser campeão, a tarefa não seria tão difícil. Mas, mais uma vez, para isso era preciso ter alma de campeão. E quem estava naquele cockpit, em Interlagos, não era o “gênio indomável” que muitos acreditaram existir, ou o “prodígio inglês” que muitos quiseram amar. Quem dirigia o carro número 2 era um fantasma. Um fantasma derrotado, que se arrastou pela pista no resto da prova, sem nunca parecer poder voltar à briga. Um fantasma que talvez jamais volte a ter outra chance de chegar tão perto de um título mundial de F1. E que, quero acreditar, acabava de aprender algumas lições. Uma, a de que meninos tem que aprender as suas limitações, e como supera-las. Outra, que não estou certo se ele aprendeu, é a de que o crime não compensa.

Enquanto isso, em algum  lugar, os deuses riam, satisfeitos. E erguiam garrafas de champagne, brindando com Fangio, Clark, Senna, Villeneuve e tantos outros, brindando à vitória do esporte e à derrota das trapaças.

(Via F1 Girls)

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Foi mais ou menos assim…

22 Outubro 2007

Extra! Extra! O QsQ dá um furo (epa…)! Nosso repórter secreto em São Januário acaba de registrar o seguinte diálogo:

- 01!

- Sim, senhor!

- O senhor é presidente de um dos clubes mais vitoriosos do Brasil. Seu time de futebol vence apenas um dos últimos treze jogos. Como o senhor explica isso?

- O senhor sabe, capitão, os juízes…

- Os juízes, senhor 01? Só eles?

- As falhas individuais…

- Sim. E o treinador, senhor 01? O seu time passa treze jogos quase sem vencer, cai dez posições no campeonato, perde para um time de m*, e o senhor vai esperar mais quantos jogos para demitir o seu treinador? Diga, senhor 01, quantas chances mais o senhor vai dar a ele?

- Bem… Apenas mais uma, senhor capitão!

- Mais uma? Ainda mais uma?! O senhor, Sargento Miranda, o senhor é um fanfarrão!!!!

(…)

- Roth! O Miranda desistiu. Você é o xerife.

- Eu desisto, senhor!

- Obrigado, soldado Roth. Ao menos uma vez na vida, você não imagina como deixa um vascaíno feliz.

(…)

- Ei! Você aí! 11!

- Eu, parceiro?

- Tá vendo outro 11 por aqui, ô pouca sombra?

- Ih…

- O que foi? Não gostou? Pede pra sair.

- Não saio.

- OK. Então o senhor é o xerife. E tem 48 horas pra transformar esse bando de moleques em um time de futebol.

- Valeu, peixe.

- HEIN????

- Err… Quero dizer… Sim, senhor capitão!

Talvez nosso repórter tenha exagerado em uma parte ou outra. Mas parece que não foi muito diferente disso. :-)


Over and over again…

19 Outubro 2007

Eu tinha jurado a mim mesmo que não falaria mais de F1, pelo menos até domingo. Mas é impressionante como esse cara se supera a cada dia. E quase tão impressionante como a imprensa se supera na bajulação a ele. Hoje, o Globo Esporte teve uma matéria imprópria para diabéticos, mostrando o simpático Lewis Hamilton atuando numa pegadinha na noite de São Paulo, bancando o motorista particular de um felizardo que saía de uma boate. Tudo, oficialmente, para passar a mensagem “se beber, pegue um táxi”. E, extra-oficialmente, para passar a outra mensagem, “oh, como ele é gente boa”.

Entrevistado depois, o paulistano que teve Hamilton como motorista se desmanchou, seguindo o script. “Ele é muito simpático, é um verdadeiro campeão”. E Hamilton, virado para as câmeras, completou: “I love Brazil! It’s a wonderful place.” Dizem que ele também se encantou com a feijoada que comeu ontem.

Enquanto isso, Fernando Alonso não vai pra night, não como feijoada, não sai com a filha do chefe e não elogia a mulher brasileira. É mesmo um panaca esse espanhol azedo.

Corta a reportagem para as ruas do Rio. Uma urna está instalada, para pesquisar por quem o brasileiro torce no domingo. Três pessoas abrem seu voto para o repórter. Hamilton, Hamilton, Hamilton. “Parece que o inglês realmente consquistou o povo, não é?”, pergunta o repórter, empolgado, depois de cumprir sua pauta.

Sim, claro. Não me surpreende. Hamilton e o brasileiro tem muitos pontos em comum… Não é à toa que as duas maiores torcidas do país são pelos dois clubes mais protegidos da história do futebol e mais envolvidos em falcatruas que existem. Eles se merecem. Ajudados pela arbitragem, protegidos pela imprensa, às voltas com corrupção. Tudo a ver.

Hoje, em Interlagos, o bom menino Hamilton voltou a mostrar sua verdadeira cara. Mais uma vez, ele deserespeitou o regulamento. Dessa vez, ele utilizou os dois jogos de pneus a que a equipe tinha direito, mesmo o regulamento proibindo isso. Com isso, Alonso não pôde treinar. A McLaren se desculpou pelo “erro”. Poxa, nós esquecemos que não podia trocar, vimos quatro pneus ali sobrando, e nem lembramos que tinha outro piloto na equipe. Essas coisas acontecem, né?

Claro. E tem gente que continua acreditando. Tem fã que é cego. E parece que o fiscal que a FIA colocou nos boxes pra tentar impedir a McLaren de sabotar Alonso de novo vai ter trabalho…

Alonso, que está fazendo de tudo pra não criar polêmica, minimizou o fato, e diz acreditar que “realmente foi um erro involuntário”. Ontem, ele já havia dito que “a imprensa é que criou esse clima de guerra”, pois “não há inimizade entre ele e Hamilton”. O espanhol está visivelmente cansado de tudo que o inglês vem aprontando, e agora parece querer responder apenas nas pistas.

Realmente, eu não sei se, pelo menos desta vez, a intenção de Hamilton e da McLaren foi a de prejudicar Alonso. Não me parece. Acho que foi mais um joguinho de poder, uma demonstração de “olha, quem manda aqui sou eu, eu faço o que eu quero, quebro as regras que eu quiser, e ninguém me toca, porque eu sou o gênio perfeito, tá?”.

E a FIA passou recibo. Mais uma vez, deixou de punir Hamilton, dando apenas uma multa simbólica de 15 mil dólares. As coisas estão chegando a um ponto tão absurdo que até fãs confessos de Hamilton, como o Livio Oricchio, estão sendo obrigados a mudar o tom e admitir que as coisas estão muito bandeirosas:

“A decisão de dar a Hamilton dois jogos de pneus de chuva impediu Alonso de treinar, caso desejasse. É ou não grave, amigos?

Não havia quem acreditasse numa punição mais séria para Hamilton, hoje. Ouvi muita gente. Sabe por quê? Porque as decisões da FIA, em especial a que não puniu Hamilton pelo comportamento diante do safety car, no Japão, levaram a maioria a acreditar em tratamento diferenciado ao jovem inglês que, absolutamente, pelo seu imenso talento e competência, não necessita.

Alonso não iria deixar os boxes e tampouco Hamilton foi privilegiado por experimentar em 10 voltas dois jogos de pneus num treino livre. Não foi isso que o fez ser o melhor à tarde, mesmo sem nunca ter estado em Interlagos. Mas regras existem para serem cumpridas.

Punir com 15 mil euros e um jogo de pneus de chuva diante da previsão de pista seca para a classificação, amanhã, e a corrida, domingo, é não punir. A FIA reforça a cada decisão, este ano, a impressão de atenuar eventuais punições a Hamilton, como fez com Michael Schumacher em algumas ocasiões.”

Hamilton segue, no tapete vermelho estendido por todos os seus padrinhos, rumo a um título manchado. E eu, de minha parte, tenho esperança que os deuses da F1 estejam guardando uma boa gargalhada para o final…

Ah, e não esqueçam de visitar esse site e deixar sua mensagem. E, já agora, aproveitem pra ver esse video, com os desejos mais ou menos inconfessáveis dos fãs do automobilismo e da justiça poética. :-)

Si me preguntan que prefiero personalmente, pues diría que me gustaría que ganase Alonso. Primero, porque es un gran piloto, como ha demostrado conquistando dos títulos mundiales en los últimos años. Pero también se lo merece por todo lo que ha sufrido durante esta temporada, por su situación en el equipo. Sería muy bonito que lo consiguiera, porque supondría que es capaz de vencer otro campeonato superando las adversidades, con todo en contra.

(Rubens Barrichello, citado pelo jornal As, mostrando mais uma vez como as atitudes de Hamilton têm atraído a “simpatia” dos seus colegas)


Welcome to Congo

17 Outubro 2007

“O Congo está nos ensinando como construir uma democracia cada vez mais forte e na paz.”
(Luís LI, o Rei-Nu, em tournée pelas democracias à africana)

Cada um aprende as lições de acordo com a sua capacidade de aprender, não é mesmo?

Vamos ver o que o Congo tem a ensinar a Lula sobre democracia.

O atual presidente congolês, o senhor Denis Sassou-Nguesso, chegou ao poder em 1979, depois de um golpe de Estado. Dominou o país com mão de ferro durante 13 anos, até ser derrubado, em 1992. A partir de então, Monsieur Sassou-Nguesso buscou o apoio de seus amigos angolanos do MPLA para retomar o comando do Congo. Depois de uma sangrenta guerra civil, conseguiu voltar ao trono em 1997. Está lá até hoje.

Eleições? Sim, houve uma, em 2002, vencida por Sassou-Nguesso com 100% dos votos, já que, dos seus três adversários, dois foram cassados e um desistiu da candidatura na véspera do pleito, ouvindo o “apelo” do presidente.

É esse o homem que Luís LI considera ter muito a lhe ensinar em termos de democracia. Logo, pela lógica, concluímos que, ao menos para o Noço Guia (de turismo) o ditador Sassou-Nguesso é mais democrata que ele, o suficiente para lhe dar “aulas”.

Na véspera, Lula tinha estado na Burkina Faso, onde discursou (não riam, por favor, que a coisa é séria) sobre a “revigoração da democracia na África”. E falou isso ao lado de um outro professor, o presidente burkinês-fasano (?) Blaise Camporé.

O que Camporé ensinaria a Lula sobre democracia? Bem, Camporé era um capitão do exército de Burkina, que deu um golpe em 1987, assassinou o presidente Thomas Sankara, e assumiu o poder. Aprovou uma nova Constituição, que permitia reeleição perpétua, e venceu as eleições seguintes, em 1991, 1998 e 2005. Está, portanto, completando 20 anos de governo democrático e popular, e se preparando para o quinto mandato, “Camporé de novo nos braços do povo”.

Camporé ensina mais a Luís LI: ensina a ele novas maneiras de utilizar a novilíngua orwelliana. O ditador burquinense convidou o seu colega brasileiro para a “comemoração” dos 20 anos do seu governo popular e democrático. O AeroLula foi recebido por grupos de jovens com bandeiras do Brasil, e faixas exaltando os “20 anos de democracia e progresso” da Burkina Faso, sob a liderança do herói Blaise Camporé. Para marcar a efeméride, Camporé organizou um colóquio com o tema “Democracia e Desenvolvimento na África”, onde Lula foi o convidado de honra. A banda militar burquinesa tocou Chico Buarque, em homenagem ao ilustre visitante.

No discurso, além de exaltar a democracia burquinesa, Luís LI não deixou por menos:

 

“Se ao invés de pão a gente comprar canhão, ao invés de arroz comprar fuzis, e se ao invés de abraçar um companheiro atirar nele, certamente o país nunca irá se desenvolver.”

Ao seu lado, o companheiro Camporé, que pra tomar o poder pegou um fuzil e atirou no presidente Sankara, ao nivés de abraça-lo como a um irmão, sorriu amarelo.

Luís LI, realmente, deve ter se sentido em casa na Burkina Faso. Afinal, um país de 13 milhões de habitantes e 10 milhões de analfabetos, onde um tirano se eterniza no poder “nos braços do povo” é mesmo um paraíso…

Acho que podemos imaginar que tipo de “lições democráticas” Noço Guia (de turismo) traz de volta para casa, não? E para aqueles que quiserem me chamar de “cão raivoso da direita reacionária elitista e leitor da Veja”, talvez seja interessante ouvirem as palavras de vosso guru, o sargento Marco Aurélio “top top, fuc fuc” Garcia:

“O governo brasileiro considera Burkina Faso uma democracia. Seu presidente tem se subordinado a eleições livres, fiscalizadas internacionalmente.”

É bom sabermos o que MAG, a eminência parda do PT e do Foro de S. Paulo, entende por “democracia” e “eleições livres”. Assim, quando ele usar esses conceitos por aqui, podemos lembrar de lhe perguntar: “o PT defende democracia como a de Burkina Faso, e eleições livres como as que elegeram Camporé, Mr. MAG?”.

Enquanto isso, na Sala da Injustiça…

O TSE decidiu que os mandatos dos parlamentares pertencem aos partidos, e que o troca-troca de políticos, geralmente atrás de vantagens oferecidas pelo governo, pode ser punido com a perda do mandato.

Vai daí, vão ao Congresso Nacional entrevistar um cidadão chamado Luiz Sérgio, deputado federal pelo PT (argh) do RJ (argh, argh), que dispara a sua fórmula para “curar” o problema provocado pelo TSE.

“Isso mostra que está mais que na hora de fazermos uma reforma política, ampla.”

Tudo é desculpa para o PT querer interferir nas decisões do Judiciário – quer dizer, naquelas que os desagradam. E tudo é pretexto para trazer à baila a idéia da “reforma”, da “Constituinte”, ou coisa que o valha.

Fica a pergunta: deputado Luiz Sérgio, uma reforma política ampla nos mesmos moldes daquela proposta pelo democrata governo da Burkina Faso?


Horários de verão

16 Outubro 2007

Era Winston Churchill, creio, quem dizia que a falta de pontualidade era um hábito vil. Churchill nunca conheceu o Brasil. No Brasil, não é a falta de pontualidade que é um hábito vil. É a própria pontualidade.

Aprendi a lição às minhas custas, depois de vexames sem fim: alguém me convidava para jantar lá em casa às 20h. Eu aparecia às 20h (com vinho, com flores). A anfitriã recebia-me à porta e, com cara de quem presenciara uma catástrofe, disparava: “Ué, você veio tão cedo?” E depois acrescentava que:

a) O jantar só era às 20h (sic);
b) A casa não estava arrumada;
c) O jantar não estava pronto;
d) Ela não estava pronta;
e) Os convidados ainda não tinham chegado.

Mas chegavam. Pelas 22h, 23, alguns à meia-noite, perguntando se não tinham chegado cedo demais. Por essas alturas, eu já dormia a um canto. De cansaço e de vergonha. Desconfio que, algures pela casa, alguém conspirava contra mim:

- Você sabe que eu disse ao português para ele chegar às 20h e ele chegou mesmo às 20h?
- Sério?
- Sério, rapaz. Ele deve ter um problema, ou algo assim.

Texto do sempre excelente João Pereira Coutinho, publicado na Folha de São Paulo de ontem. Leia o resto do artigo aqui.

O retrato é perfeito, é uma situação que já cansei de vivenciar. Sim, eu sou um dos idiotas que acredita que “20 horas é 20 horas”, e que nunca deixa de se surpreender ao ver que, mesmo forçando sua natureza e se atrasando meia hora de propósito, ainda assim é o primeiro a chegar em qualquer lugar. E essa é uma das manias brasileiras que mais me irrita.

Se o problema fosse apenas a má educação de um povo que não sabe respeitar um horário, menos mal. Só que é um pouco pior que isso: é a cultura da má educação, é a má educação como orgulho. Faz parte do “jeitinho”, da “maneira de ser” brasileira. Chegar na hora? É pra gringos chatos e quadrados, sem jogo de cintura. Brasileiro é esperto, é descolado, não é escravo do relógio. Sai de casa à meia noite, para uma festa que começava às dez, porque sabe que ela só vai bombar de madrugada. E se orgulha disso tudo, como se fosse muito bonito.

O carioca, então, leva isso ao extremo. É um povo que, incapaz de se corrigir, transforma os defeitos em “estilo”, e ainda faz pouco dos que não tem esses defeitos. Uma amiga paulista diz, entre divertida e horrorizada, que um paulista vai mais elegante na padaria de manhã de que um carioca numa festa chique. E é verdade. No Rio, o chique é não ser chique. É gastar duas horas pra deixar o cabelo despenteado, quatro para ficar cuidadosamente mal vestido, na última moda do despojamento. Eu tive um colega, há alguns anos, famoso entre as mulheres por sua barba “milimetricamente malfeita”. Vocês não imaginam o trabalho que ele tinha, toda manhã, pra criar aquele efeito e dar a impressão que não fazia a barba…


Que tipo de queijo você seria?

15 Outubro 2007

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Faça o teste aqui.


Se alguém ainda tinha dúvidas…

15 Outubro 2007

Agora é oficial. Ron Dennis admite abertamente como a McLaren pensou e agiu durante a temporada de 2007:

“Os pneus do Lewis estavam nas piores condições possíveis. Mas não estávamos preocupados com Kimi. Não estávamos correndo contra o Kimi. Estávamos, basicamente, correndo contra o Fernando. Se Kimi vencesse e Lewis fosse segundo, tudo estaria bem. Mas não funcionou assim”.

Exatamente. Ron Dennis, o chefão da McLaren, diz com todas as letras que a equipe estava correndo contra o seu próprio piloto. O que mais é necessário para os fanáticos do “menino prodígio” admitirem o fato óbvio de que vale tudo para dar o título a Hamilton? Que parte de “estávamos correndo CONTRA Fernando” vocês ainda não entenderam?

Ainda bem que, por mais ajudas que se dêem a um piloto, há uma coisa que não se pode fazer: mante-lo na pista. Por mais que se ajude Fulano e se prejudique seus adversários, sempre existe uma possibilidade de se fazer justiça. E essa possibilidade foi exatamente o que aconteceu no GP da China: um erro grosseiro do Sr. Lewis Perfeito, no momento em que via Alonso se aproximar, depois de tirar uma diferença de 17 segundos.

Ele pode até ganhar o título. Ainda é franco favorito pra isso. Mas, além de todas as falcatruas, ainda vai ter que conviver, eternamente, com a cena da sua barbeiragem na entrada dos boxes, depois de ter detonado os pneus. Aliás, da mesma forma como tem detonado os pneus daquele lado, em praticamente TODAS as provas, desde que parou de copiar os acertos de Alonso. A exceção foi o GP do Japão, onde, não devemos esquecer, a prova teve apenas metade das voltas previstas.

Se o GP do Brasil correr normalmente, a tendência é que Hamilton sinta novamente a pressão e perca o título. Mas “correr normalmente” é algo que a McLaren se esforça em não fazer.

O GP da China foi mais uma prova disso. Durante os treinos livres, Alonso andou sempre na frente. Na hora da volta decisiva para a pole, seus pneus “misteriosamente” ficaram com a pressão acima do normal, sua volta foi 6 décimos mais lenta que as anteriores, e ele caiu para o quarto lugar. Esse fato lhe custou a vitória e, possivelmente, o título. A FIA investigou a provável sabotagem, e descobriu que houve um (cof, cof) “erro” da equipe. Qual a probabilidade de (cof, cof, cof) “erros” assim voltarem a acontecer em Interlagos?

“Estamos correndo contra o Fernando.”
(Ron Dennis)

************************************

Enquanto isso, Lewis Hamilton, o menino superprotegido que frequenta as melhores festas e sai com a filha do dono da equipe, dá mais algumas provas do seu (por assim dizer) caráter.

Primeiro: vocês conhecem a biografia do prodígio? Sim, ela já existe! Está nas livrarias desde agosto, contando a sua imensa, histórica, memorável carreira. Tem um título modesto como o dono: “Lewis Hamilton – The King of the World”. E conta como um menino negro superou a todos e se tornou campeão do mundo em sua primeira temporada na F-1. Sim. Na metade da temporada, a biografia já dizia isso. Premonição? Excesso de confiança? Ou o autor simplesmente sabe de coisas que nós, aqui de fora, apenas desconfiamos?

Bem, o último cara que eu conheci que saiu por aí gritando “I’m the king of the world!” acabou congelado, vendo o navio afundar. Vamos ver se a história se repete.

(Ah, se você achar “O Rei do Mundo” algo muito megalomaníaco, tente esse aqui: “Lewis Hamilton, o Campeão do Povo”. Só faltou o subtítulo: a Lady Di da velocidade…)

Mas os autores fazem bem em lançar esses livros todos agora. Se esperarem mais um ano, talvez ninguém mais vá lembrar quem foi esse cara. :-)

E tem mais: Hamilton disse que vai visitar o túmulo de Ayrton Senna – depois de ganhar o título em Interlagos. E, claro, anunciou isso para a imprensa em press release, para garantir toda a divulgação possível agora, para se mostrar simpático aos brasileiros antes da prova, e toda a cobertura depois, caso ele vença o título. A manchete já deve estar até pronta: “um encontro de campeões”, “dois gênios frente a frente”, “o mestre e o herdeiro”, ou algo nessa linha.

Patético. Mas, se os deuses da F-1 estiverem de plantão, esse cara vai ter que engolir tudo que fez e disse esse ano. De preferência com mais um abandono humilhante. Minha torcida se divide. Uma parte quer ver uma vitória memorável de Fernando Alonso, interpretando o El Cid das Astúrias, vencendo um campeonato de raiva, onde fizeram de tudo pra derruba-lo. Mas outra parte adoraria ver Alonso e Hamilton se enroscarem no Laranjinha, Kimi Raikkonen vencer, ser campeão. E, depois da prova, Dennis e Lewis, qual Dick e Muttley, chorando pelos cantos, e passa o espanhol, com um sorriso aberto, “adiós, muchachos, que me voy para Renault, lá soy amigo del rey e ustedes que se ***”.

Vamos a Interlagos! :-)


Desmontando um (cli)Che

9 Outubro 2007

Hoje, 9 de outubro de 2007, se comemoram os 40 anos da morte do mercenário argentino Ernesto Guevara, mais conhecido como “El Che” ou “El Chancho”.

O romântico bandoleiro, autor da singela frase “o verdadeiro revolucionário deve ser uma máquina de matar, fria e sem sentimentos”, muito valente na hora de torturar inimigos desarmados e de matar camaradas que o desagradassem, foi capturado na Bolívia, em 9 de outubro de 1967. Suas últimas palavras, não tão valentes, foram uma súplica para que poupassem sua vida e tivessem com ele a misericórdia que ele não teve com suas vítimas.

Com o tempo, criou-se um mito em torno de Che, e ele acabou virando um símbolo de “romantismo idealista revolucionário”. Cabelos ao vento, olhar perdido no horizonte, Ernesto Guevara é o ídolo de todos os filhinhos de papai que querem mostrar “rebeldia” e manifestar seus mais profundos sentimentos antiburgueses.

Hoje, um pouco ao redor do mundo, jovens vestem as suas camisetas pop com o ídolo do “hay que endurecer, pero si perder la ternura”, políticos ao redor do mundo aproveitam a democracia em que vivem para lamentar que não estejam numa ditadura, e intelectuais celebram a memória do assassino portenho. Enquanto isso, na imprensa, há quase uma unanimidade na celebração do culto de São Guevara.

Todos? Não. Assim como nas histórias do Asterix, há sempre algumas aldeias de irredutíveis gauleses, tentando resistir a esse rolo compressor da “história dos vencedores”.

Na semana passada, a Veja publicou um especial sobre Che Guevara, desmontando um a um os mitos que envolvem a peça e os milagres que lhe atribuem. Enquanto isso, em Portugal, coube à Atlantico fazer o mesmo, com uma capa muito bem realizada.

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Como era de se esperar, dos dois lados do Oceano, Veja e Atlântico estão sendo bombardeadas pelos suspeitos do costume. Nada que seja de se espantar. Tanto uma quanto a outra tem a “desagradável” mania de não seguir a carneirada, e falar as verdades chatas que os outros não falam. Enquanto elas continuarem a levar vaias de onde estão levando, está tudo bem. Só prova que fazem um bom trabalho.


Viajando com bebês

9 Outubro 2007

O Jorge Bernardes, do GiraMundo, está postando uma série imperdível, chamada “Viagem com Bebês”, contando em capítulos a sua aventura pós-paternidade: viajar pela Europa com a filhinha, de apenas dois meses. E não, não é uma loucura. É uma prova de que, com bom senso e planejamento, tudo é possível.

Os textos são ótimos, e eu recomendo a leitura de todos. Mas, principalmente, do quinto (e último, por enquanto), que é encantador. Para ler, se emocionar e bater palmas. Ah, claro – e morrer de inveja com aquelas fotos.

01 – Prefácio
02 – Roteiro
03 – Triatlon no Aeroporto
04 – Voando no berço de ouro
05 – “La dolce vita” de bebê


O Filho Pródigo

7 Outubro 2007

Na primeira vez que tentei ler esse texto, não consegui ir até o fim. Parei, dei um tempo, voltei a tentar. Dessa vez, fui até o final. Com um bolo na garganta, mas tentando controlar. Afinal, tinha gente em volta.

Na terceira vez, eu estava sozinho. E não precisava me controlar. E senti o mesmo de novo.

Para alguém que ama futebol e textos bem escritos, é fácil entender o que ele tem de especial.

Em Recife, simpatizo com o Sport, confesso. Mas algumas coisas nos últimos anos tem me feito olhar com mais simpatia para o Náutico. E a sua participação nesse campeonato de 2007 é muito interessante. O Timbu não vai cair. Não pode. Seria injusto demais.

Roberto Vieira escreve no site Nautico.Net. A versão original desse texto pode ser lida aqui, embora eu o tenha visto pela primeira vez no blog do Juca Kfouri. E o jogo citado na crônica aconteceu mesmo, exatamente daquele jeito.

O FILHO PRÓDIGO
(Roberto Vieira)

“Eu amava a Alice’.

Eu estava ali sentado no hospital imaginando o que escrever sobre o Clássico dos Clássicos quando aquele senhor perdido em seus devaneios repetiu:

‘Eu amava a Alice’.

Antes que eu pudesse esboçar uma defesa ele prosseguiu. E eu não pude deixar de sorrir com o resto da história. História que eu transcrevo aqui pra vocês.

‘Eu amava Alice. E o pai de Alice era rubro negro. Diria mais, era um torcedor fundamentalista do Esporte.

Eu torcia pelo Náutico. Torcia é modo de dizer. Meu pai me levava a campo. Mas não compreendia bem aquela algazarra, aquela paixão.

Eu só amava Alice.

Quiseram me fazer de mascote, mas eu resisti à idéia. O que Alice ia dizer quando soubesse? Meu pai ficou triste. Porém era um raro exemplar de pai democrático naqueles tempos de palmatória. Desde esse dia não me forçou mais a ir a campo. Me dava um beijo e saía solitário para o estádio.

Eu ficava sonhando com Alice.

Naquele tempo namoro nem pensar. Era necessário um Concílio Vaticano pra pegar na mão da moça. Entretanto eu dava sorte, a mãe de Alice me dava aulas de reforço. E eu nunca melhorava muito na matéria senão eu deixava de ter aulas na casa de Alice.

Numa dessas aulas o pai de Alice puxou conversa sobre futebol e perguntou se eu torcia por algum time. Respondi de bate pronto: Esporte!

Ele exultou. Antes que eu pensasse duas vezes ele me chamou pro jogo contra o Náutico quando o Esporte, que ganhara o primeiro turno e liderava o segundo turno, iria jogar contra o alvirrubro.

Ainda lembro bem o dia. 20 de novembro de 1951. Era aniversário de papai.

Eu amava Alice.

‘Combinado!’

No dia do jogo eu menti pra papai. Teria prova no dia seguinte, ia estudar com os amigos. Saí de casa como um fugitivo da lei e encontrei-me sorrateiro com o pai de Alice nos Aflitos.

Quis o destino este senhor de mil faces que um rosto conhecido se cruzasse com o meu na multidão. Meu pai trocara o caminho, quem sabe pensativo em sua solidão, e passara defronte da torcida do Esporte.

Lá estava eu. Calabar.

Meu pai caminhou em minha direção e quando preparei o rosto pra primeira bofetada da minha vida ele me abraçou, deu um beijo em meu rosto e sussurrou baixinho em meu ouvido:

‘Não precisava mentir. Eu sempre vou te amar!’

E saiu para o seu lugar de sempre nas arquibancadas dos Aflitos.

Mudo. Envergonhado, fui conduzido pelos novos amigos rubro negros sob os gritos de Casá-Casá. Quando ergui meus olhos lá estava meu pai na torcida do Náutico. Eram poucos. Ninguém acreditava que naquela altura do campeonato algo fosse mudar a história.

Talvez apenas meu pai e os jogadores.

Quando o jogo começou, logo nos primeiros movimentos o atacante Tonho do Esporte marcou 1×0.

Meu pai olhava para o gramado hipnotizado. O que pensava eu não sei.

Os torcedores do Esporte deliravam e provocavam na distância os seus adversários: ‘A turma é da fuzarca!’

O pai de Alice me abraçava.

Um segundo depois o goleiro Vicente do Náutico sofre uma distensão. Não pode continuar jogando.

Não havia substituição naquela época. O grande zagueiro Lula veste a camisa de goleiro e vai pro gol.

Grande parte da torcida alvirrubra vai embora. O massacre era uma questão de tempo.

Rezo para que meu pai vá embora. Mas o seu olhar permanece distante. Como se nem mesmo percebesse o gol.

Desvencilhei-me dos meus novos amigos. Corri pela noite até o meu pai. Abracei-o em silêncio.

Iríamos enfrentar juntos ao dilúvio.

O Esporte parte para a goleada. Seu ataque perde duas chances claras de ampliar o marcador.

De repente Alcidésio avança e observando Manuelzinho adiantado dispara. Parecia impossível, a bola alcança as redes e o jogo está empatado: 1×1!

O que restou da torcida começa a gritar ‘Veteranos’. Era assim que se chamavam os jogadores do Náutico. Algo em todos nós avisa que o leão está nocauteado. Levou um direto no queixo.

Djalma como um raio dribla toda a defensiva adversária e marca o tento da virada 2×1.

O Esporte era o líder invicto do returno.

Lula prossegue defendendo tudo depois do intervalo.

Então Zeca aumenta para 3×1.

Hélio Mota faz 4×1.

O oportunista Fernandinho estabelece a goleada: 5×1!

Todos os atacantes do Náutico assinalaram um gol. Lula não sofreu nenhum.

O pai de Alice proibiu minhas aulas de reforço.

E daí?

Naquela noite voltamos eu e meu pai gritando N-Á-U-T-I-C-O pelas ruas da cidade.

Durante os anos que se seguiram assistimos muitas vitórias. Muitas derrotas também doeram em nosso coração.

Mas estávamos sempre juntos.

O Estádio dos Aflitos era o nosso país das maravilhas…’


Um ano negro para a F-1

5 Outubro 2007

“Parece que todo mundo quer ver o Hamilton campeão, né?”
(Felipe Massa, comentando as atitudes da FIA em proteger o inglês, após o GP do Japão)

 

“Ele é bom, claro, mas o pegaram no colo e deram tudo e mais alguma coisa para chegar nisso que estamos vendo”
(Nelsinho Piquet, colega de Hamilton na GP2)

 

“Sei do seu potencial, mas a verdade é que ele começou na melhor equipe, e com toda a proteção dos donos. Se eu tivesse os mesmos recursos…”
(Adrian Sutil, companheiro de Hamilton na F-3)

“Prefiro não responder”.
(Fernando Alonso, depois do GP do Japão, quando perguntado sobre o boato de que a McLaren fez ajustes no seu carro para diminuir o rendimento na pista)

Não sou exatamente o fã número 1 do Massa. Mas nessa ele acertou na mosca, e verbalizou exatamente o que pensam todos os fãs de automobilismo, diante da palhaçada que está sendo o campeonato de 2007. Da mesma maneira que Nelsinho e Sutil definiram o sentimento entre os pilotos e aqueles que acompanham o mundo da velocidade. Lewis Hamilton é um bom piloto, sim, mas longe, muito longe, de ser sequer metade do que pensa que é. Existem outros pilotos na sua geração tão bons e até melhores que ele, mas que não tiveram as mesmas “ajudas” que o inglês teve.

Desde o início da temporada, criou-se um mito em torno de Hamilton, o inglês, o menino prodígio, o negro, e ergueu-se em torno dele um muro de superproteção, destinado a leva-lo ao título.

O bicampeão Fernando Alonso foi, e está sendo, sabotado dentro da McLaren. Isso é algo cada vez mais claro, e muitos dos que criticaram o espanhol por “chorar” no meio da temporada agora dão o braço a torcer. Desde cedo ficou claro que Hamilton era o queridinho da equipe. Ele tinha direito a copiar os acertos de Alonso, e só conseguiu ser tão veloz graças a isso – tanto que, depois que Alonso passou a esconder os acertos, Hamilton andou sempre atrás, com exceção das duas provas em que a FIA lhe deu a vitória de bandeja.

Hamilton estava sempre em festas com a equipe, até chegar ao cúmulo de namorar com a filha do dono da McLaren. Enquanto isso, Alonso era sempre deixado em segundo plano, tendo que lutar contra os adversários e contra a própria equipe, e ainda aguentar as seguidas alfinetadas dadas por Hamilton à imprensa. Do outro lado, a FIA passou o ano tomando sempre decisões que visavam beneficiar o inglês. E assim se fabrica um campeão.

Para não ir muito longe, foi assim em Hockenheim, quando Hamilton foi guinchado para a pista, e deveria ter sido desclassificado por isso. Foi assim na Hungria, onde a FIA roubou a pole de Alonso, logo na pista onde a pole é 90% da vitória. Foi assim em Monza, quando Hamilton atropelou Massa, e não foi punido por isso, ao contrário de outros pilotos que fizeram manobras nem de longe tão apelativas.

 

Mas o que aconteceu domingo passado, no Japão, foi o cúmulo dos cúmulos. É uma corrida que vai entrar na história da F-1 pelos piores motivos. Fuji-2007? Ah, sim, claro, aquela corrida que a FIA deu pro Hamilton.

A lambança começou antes mesmo da prova. A FIA decidiu que, por medida de segurança, todas as equipes deviam largar com pneu de chuva. Avisou todas as equipes por e-mail. Mas, vejam só a coincidência, “esqueceu” de avisar logo a Ferrari. A Ferrari, sem saber que todas as equipes teriam que largar com pneu igual, resolveu arriscar usar um pneu intermediário. Por causa disso, teve que fazer um pit stop logo na primeira volta, ameaçada de desclassificação pela FIA, por “desrespeitar o comunicado”. Assim, Raikkonen e Massa ficaram nas últimas posições, e afastados da luta pela vitória.

Dessa forma, metade do objetivo estava alcançado: só Alonso ficava entre Hamilton e a vitória que a FIA queria dar a ele.

 

O segundo ato foi dar a largada sem a menor condição pra isso, debaixo de chuva e nevoeiro. Todo mundo sabe que, nessas condições, o único piloto a ter visibilidade é quem vai na frente. Como sequer teve largada, a vantagem era do pole position. E, vejam só a coincidência, quem era ele? Hamilton.

A largada foi feita com o safety car na pista, numa situação limite, em que só Hamilton tinha visibilidade, e os outros todos tinham que dirigir quase às cegas. E pensam que o safety car ficou na pista uma, duas, três voltas, como é o normal? Que nada. Ele ficou durante VINTE voltas. Vinte! Quase metade da prova!!! Um absurdo jamais visto na história da F-1. Todos os pilotos com alguma experiência, como Coulthard, Barrichello, Fisichella, Trulli, foram unânimes am afirmar: naquelas condições, a prova não deveria começar. Começar uma prova, para ficar METADE das voltas fazendo procissão e mantendo as posições dos treinos, só serve para ajudar quem está satisfeito com a posição do grid.

O objetivo cumprido: reduzir a prova à metade. Assim, o pole position teria que defender sua posição apenas metade do tempo, e não uma prova inteira.

 

Durante todo o tempo do safety car, Hamilton jogou sujo, freando bruscamente por diversas vezes, tentando induzir Alonso a uma batida, que só não aconteceu graças à habilidade do bi-campeão.

Quando Alonso bateu na curva 6, a FIA suspirou aliviada. A McLaren também. Era visível a expressão de alegria no rosto de alguns mecânicos. Alonso foi para o hospital, onde passou algumas horas em observação, e NINGUÉM da McLaren o foi visitar, sequer pra saber se ele estava vivo. Estavam todos muito ocupados festejando o acidente.

Agora sim, a vitória de Hamilton estava garantida, pensavam todos. Só não contavam com o atrevido Robert Kubica (esse sim, piloto de verdade, sem marketing), que apertou o “campeão”, brigando pela ponta. Hamilton começou a chorar, e a FIA correu a punir Kubica com um drive through surreal, que teve apenas o objetivo de afastar o polonês do caminho.

Mais algumas voltas, e mais pressão pra cima de Hamilton. Agora eram Webber e Vettel (guardem esse nome – não é inglês, não é negro, por isso não tem direito às mesmas proteções, mas vai dar o que falar) que apertavam o prodígio. Quando o safety car entrou na pista, Hamilton voltou a fazer as mesmas sujeiras que tinha tentado contra Alonso. Freou, freou, quase parou o carro, até que conseguiu o seu objetivo: Webber teve que frear mais forte, e Vettel, sem tempo pra reagir, tocou na sua traseira, tirando os dois da prova.

As trapaças de Lewis Hamilton deram certo novamente. E dessa forma, com a ajuda da FIA, ele conseguiu se livrar de mais duas ameaças ao seu triunfo.

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(imagem: F-1 Girls)

E foi assim que Hamilton venceu o GP do Japão. Uma página muito triste, mais uma, nesse ano negro da F-1. Se já não bastassem todos os problemas envolvendo o escândalo da McLaren e da espionagem, ainda temos que aguentar toda essa manipulação de resultados.

Alonso está sendo um herói em toda a temporada. Lutar contra todas essas forças, e chegar à penúltima prova ainda com chances é algo maravilhoso. Eu sou torcedor de Raikkonen, mas esse ano passei a torcer muito por Alonso: uma vitória dele seria um tapa inesquecível em todo esse esquema de Hamilton, e uma prova de que às vezes o crime não compensa. Ficou muito difícil agora. Mas ainda dá pra sonhar. Até à última bandeirada.

Bônus: uma excelente animação do Marca, explicando de forma didática a última armadilha de Hamilton contra Webber e Vettel. Já que eles proíbem vídeos de F-1 no Youtube, essa é uma boa saída pra quem ainda não viu a manobra do inglês. Depois de ver isso, ninguém honesto pode discordar da canalhice de Hamilton. E não esqueçam: ao vivo, a coisa ainda foi MUITO pior do que a animação, já que o desenho bonitinho não retrata o clima real, de chuva forte e nevoeiro. Pra não falar que essa manobra não foi a única, foi apenas a última de uma série.