- Olá.
- Demoraste. Eu estava à tua espera.
- Me perdoe. O trabalho anda pesado, por estes dias.
- Tudo bem. Ainda temos tempo.
- Sim. Começamos?
- Começamos. Se não te importares, desta vez jogo eu com as negras.
- Não nego estar surpreso. Mas se é assim que preferes…
- Sim, prefiro. Num mundo a branco e negro, qualquer pequena mudança na imagem pode ter significado.
- Não pareces estar muito feliz com a minha vinda.
- Engano teu. Há tempos não estava tão satisfeito. Andava entediado.
- Com os teus outros visitantes?
- Não. Comigo mesmo.
- Compreendo. Não deve ser fácil para ti enfrentar a sensação de viver num mundo de fantasmas.
- Como um prisioneiro dos meus sonhos?
- Vejo que ainda te lembras disso.
- Como esquecer? Eles me acompanham por todo o tempo.
- Pensei que fosse eu que te acompanhasse.
- Dá no mesmo, não dá?
- Não te cansas de perguntar coisas?
- Não. Nunca.
_ Mas nunca terás respostas.
- Talvez. Ou talvez não. Xeque.
- Oh. Boa tentativa. Mas não vai ter resultado.
- Sei disso. Mas às vezes é bom te dar um susto.
- Não seria o contrário? Não seria eu que deveria te assustar?
- Há alguns anos, talvez. Hoje não. Hoje eu estou à vontade na partida. Minha vida é a história de um inconsciente realizado.
- Uma bela conclusão. Mas a hora se aproxima. Devemos partir.
- Não. Não enquanto não me ganhares. Era esse o trato, lembras?
- Sabes que não podes me vencer.
- Não. Mas posso empatar. E não é esta a graça do jogo? Em nossa vida, às vezes, jogamos pensando em vencer ou perder. Agimos, se me permites o chiste, como se fossem casos de vida ou morte. Não seria ótimo se tivéssemos sempre a exata noção de quando podemos ou não vencer, de quando devemos arriscar tudo atrás de uma vitória? E, ao mesmo tempo, sabermos quando o máximo que podemos conseguir é um empate que adie a decisão para outra hora?
- Estou orgulhoso de ti. Valeu a pena te permitir todos aqueles empates.
- Como assim, “permitir”? Eu os conquistei.
- Ah. Isso é o que nunca vais saber, não é mesmo? Xeque.
- Nada te escapa.
- Ninguém me escapa. Aliás, por falar nisso… Xeque.
- Eu posso sair dele.
- Podes. Mas será mate em quatro lances.
- Hmm.
- Mas podemos considerar isto como um empate. Não quero perder o meu melhor parceiro.
- E continuamos o jogo em outra hora?
- Sim. Só que da próxima vez será na minha casa.
- Não quero pensar que sejas mau anfitrião, e tua companhia me agrada, mas…
- Não fiques assim. Prometo servir morangos na tua primeira visita.
- Mesmo?
- Alguma vez faltei à minha palavra? Nosso jogo não foi sempre justo?
- Sim. É verdade, devo admitir. Então vamos.
- Vamos.
“I shall remember this moment: the silence, the twilight, the bowl of strawberries, the bowl of milk. Your faces in the evening light. Mikael asleep, Jof with his lyre. I shall try to remember our talk. I shall carry this memory carefully in my hands as if it were a bowl brimful of fresh milk. It will be a sign to me, and a great sufficiency.”
31 Julho 2007 às 8:28 |
“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu. ”
Nosso querido. Sim, eu sei, é batido, mas eu gosto desses versos. “Tudo um caso de vida e morte”. Não é assim? Não é assim que é a vida? Não é assim que ela vale a pena? Talvez seja um equilibrio entre querer saber, querer tudo, querer todas as respostas e os empates que adiam as respostas pra uma outra hora, criando uma expectativa gostosa que talvez nunca seja saciada. Talvez esse seja o objetivo, não sei.
MAs eu sei que gosto muito desses dois ultimos versos desta estrofe: Deus ao mar o perigo e o abismo deu/Mas nele é que espelhou o céu.” Isso me parece tanto o amor. Algo tão belo, uma aventura com abismo e perigos, dias de calmaria, dias de maremoto. Um desafio permanente que queremos enfrentar.
Vc esqueceu de colocar o link na lista :-p
:-***
31 Julho 2007 às 14:27 |
Que triste coincidência! Bergman e Antonioni, no mesmo dia.