Apenas mais uma partida

30 Julho 2007

- Olá.

- Demoraste. Eu estava à tua espera.

- Me perdoe. O trabalho anda pesado, por estes dias.

- Tudo bem. Ainda temos tempo.

- Sim. Começamos?

- Começamos. Se não te importares, desta vez jogo eu com as negras.

- Não nego estar surpreso. Mas se é assim que preferes…

- Sim, prefiro. Num mundo a branco e negro, qualquer pequena mudança na imagem pode ter significado.

- Não pareces estar muito feliz com a minha vinda.

- Engano teu. Há tempos não estava tão satisfeito. Andava entediado.

- Com os teus outros visitantes?

- Não. Comigo mesmo.

- Compreendo. Não deve ser fácil para ti enfrentar a sensação de viver num mundo de fantasmas.

- Como um prisioneiro dos meus sonhos?

- Vejo que ainda te lembras disso.

- Como esquecer? Eles me acompanham por todo o tempo.

- Pensei que fosse eu que te acompanhasse.

- Dá no mesmo, não dá?

- Não te cansas de perguntar coisas?

- Não. Nunca.

_ Mas nunca terás respostas.

- Talvez. Ou talvez não. Xeque.

- Oh. Boa tentativa. Mas não vai ter resultado.

- Sei disso. Mas às vezes é bom te dar um susto.

- Não seria o contrário? Não seria eu que deveria te assustar?

- Há alguns anos, talvez. Hoje não. Hoje eu estou à vontade na partida. Minha vida é a história de um inconsciente realizado.

- Uma bela conclusão. Mas a hora se aproxima. Devemos partir.

- Não. Não enquanto não me ganhares. Era esse o trato, lembras?

- Sabes que não podes me vencer.

- Não. Mas posso empatar. E não é esta a graça do jogo? Em nossa vida, às vezes, jogamos pensando em vencer ou perder. Agimos, se me permites o chiste, como se fossem casos de vida ou morte. Não seria ótimo se tivéssemos sempre a exata noção de quando podemos ou não vencer, de quando devemos arriscar tudo atrás de uma vitória? E, ao mesmo tempo, sabermos quando o máximo que podemos conseguir é um empate que adie a decisão para outra hora?

- Estou orgulhoso de ti. Valeu a pena te permitir todos aqueles empates.

- Como assim, “permitir”? Eu os conquistei.

- Ah. Isso é o que nunca vais saber, não é mesmo? Xeque.

- Nada te escapa.

- Ninguém me escapa. Aliás, por falar nisso… Xeque.

- Eu posso sair dele.

- Podes. Mas será mate em quatro lances.

- Hmm.

- Mas podemos considerar isto como um empate. Não quero perder o meu melhor parceiro.

- E continuamos o jogo em outra hora?

- Sim. Só que da próxima vez será na minha casa.

- Não quero pensar que sejas mau anfitrião, e tua companhia me agrada, mas…

- Não fiques assim. Prometo servir morangos na tua primeira visita.

- Mesmo?

- Alguma vez faltei à minha palavra? Nosso jogo não foi sempre justo?

- Sim. É verdade, devo admitir. Então vamos.

- Vamos.

“I shall remember this moment: the silence, the twilight, the bowl of strawberries, the bowl of milk. Your faces in the evening light. Mikael asleep, Jof with his lyre. I shall try to remember our talk. I shall carry this memory carefully in my hands as if it were a bowl brimful of fresh milk. It will be a sign to me, and a great sufficiency.”

R. I. P.


Aqui neste lugar solitário, onde a vaidade se apaga…

30 Julho 2007

Há sempre um lugar onde o covarde tem força, e outro onde o valente… se esconde. Lula não vai ao Rio, muito menos ao Sul. Mas ele vai ao Nordeste. E mesmo assim toma vaia. Em Aracaju, houve vaias e aplausos misturados. Mas no Piauí, finalmente, ele se sentiu em casa. Debaixo de uma chuva de palmas, ele discursou, e mostrou que ainda é o mesmo Lula de sempre.

“Se nós já demos uma surra nos nossos adversários pelo que fizemos em quatro anos e meio, quando a gente não tinha tanta experiência, eles vão ver agora, nesses próximos quatro anos, o que a gente vai fazer neste país”.


Perto do seu público, voltam as bravatas. É outra vez o “Lula de novo, com a força do povo”, pronto a “dar uma surra” na zelite. Mais adiante, Lula produziu uma daquelas pérolas das quais só ele é capaz:


“Só é contra (as obras que ele estava anunciando) quem não sabe o que é pegar um pote d’água cheio de barro, de merda de animal, de caramujo, levar para dentro de casa, colocar para assentar e ficar tomando aquela água barrenta cheia de caramujo para pegar doença, para apodrecer os dentes, pegar verminose.”

A demagogia lulista no seu melhor. Jogando em casa, ele volta a insuflar o “povo” contra a “zelite”. De um lado, temos o povo, que sabe o que é “pegar pote d’água com m* de animal”, que sabe o que é “tomar água barrenta pra apodrecer os dentes e pegar verminose”, e por isso vota no Lula, que também sabe o que é isso tudo. Do outro lado, temos a “zelite”, que voa de avião, e fica falando mal dele, porque é “contra as obras que vão beneficiar o povo”.

(Bem, Lula deve conhecer, bem perto dele, alguns assessores que também “apodrecem os dentes”, ainda que não tenha sido por culpa da água barrenta. Fecha parêntese.)

A rentrée de Lula foi bem ao seu estilo. Depois de fugir do Rio de Janeiro, fugir de São Paulo, fugir do Rio Grande do Sul, foi ao Nordeste buscar a sua gente, o seu “curral”. E ali ele voltou a mostrar a sua cara. Não “consternada”, ou “constrangida”. Muito pelo contrário: a cara de alguém que não sente o menor remorso por nada, e que se dispõe a “dar uma surra” nessa “zelite” que não sabe o que é pegar m* de animal. Mesmo que nos últimos quarenta anos ele, Lula, só recolha as m* feitas pelos animais-companheiros de partido.

 

Do Blog do Noblat:

“Vaiado na abertura do Pan-Americano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não compareceu neste domingo à cerimônia de encerramento dos Jogos no Maracanã. Mesmo assim, ele acabou sendo alvo de novos protestos da torcida no Estádio do Maracanã.


Quando o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, fez o seu discurso e agradeceu Lula pelo apoio na organização do Pan, grande parte do Maracanã começou a vaiá-lo.


O mesmo aconteceu com o presidente da Odepa (organização responsável pela realização do Pan), Mario Vasquez Raña, que foi vaiado ao mencionar o nome de Lula e do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.


Tanto Nuzman quanto Raña foram aplaudidos ao final do discurso – vaia só durante a citação do nome do presidente”.”

 

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No Maracanã, foram 90 mil, e tentaram disfarçar. Ontem, em São Paulo, foram sete mil pessoas numa passeata, totalmente ignorada (quando não ridicularizada) pela mídia lulo-petista.

A próxima visita de Lula é ao Mato Grosso. Pessoal de Cuiabá e redondezas, agora é a vez de vocês. Não deixem esse dia passar em branco!

Como (não) diriam Pepeu Gomes e Moraes Moreira:

No meu estado Lula vai passar
Eu também quero vaiar
Ele vem aqui mentir, e bobagens vai falar
Eu também quero vaiar
Já cansei dele tentar me enrolar
Eu também quero vaiar
Se a ministra mandou eu relaxar
Eu também quero vaiar


Futebol na segunda

30 Julho 2007

E finalmente “os Framengo” trocou de técnico. Sai Ney Fra(n)co, entra Joel Prancheta Santana. Sai o Pão de Queijo, entra a Branquinha.

Pelo menos, a diretoria dos Framengo mostrou que tem juízo. Joel tem fama de “santo milagreiro” e é um daqueles técnicos que, geralmente, é chamado quando a vaca já foi quase pro brejo, pra tentar salvar o time da segunda divisão. Em 2005, ele chegou faltando 9 jogos, venceu 6, e conseguiu salvar o rubro negro da degola na última rodada. Esse ano, chegando mais cedo, espera-se que consiga essa tranquilidade mais cedo.

Na verdade, Ney já devia ter saído há algum tempo. Isso só não aconteceu antes porque ele tem um santo muito forte. Contratado ao Ipatinga, numa negociação extremamente anti-ética (na semana em que o Ipatinga disputava a semifinal da Copa do Brasil contra o Flamengo), Ney venceu o Vasco na decisão, e isso lhe deu uma sobrevida. No início desse ano, com o papelão na Libertadores, ele voltou a balançar, mas um Carioca caiu no seu colo, e garantiu mais um mês de emprego. Agora não deu mais.

O detalhe é que nesta biografia de Ney, no GloboEsporte.com, diz-se que um dos seus grandes feitos à frente do Flamengo foi levar o clube ao 11o. lugar no Brasileiro de 2006, melhor colocação do clube nos últimos anos. Depois, quando eu digo que o Flamengo é um time pequeno que já foi grande um dia, acham que é provocação. Como chamar um time que comemora 11o. lugar, e acha um trabalho ótimo o de 2006, por ter sido o único ano dos últimos seis em que não chegou à última rodada ameaçado de rebaixamento? Comparando com a Europa, é o nível de um Mallorca, um West Ham, um Paços de Ferreira, um Messina. No Brasil, isso só é ocultado pelos tais “campeonatos estaduais”, uma idiotice que só existe nessa terra.

Mas a coisa mais divertida da demissão de Ney Franco foi esta matéria do jornal O Globo. Reparem na foto escolhida pra ilustrar a notícia. Esse repórter merecia um prêmio… :-)

(UPDATE: Trocaram a foto. Quando a matéria entrou no ar, ilustraram com uma foto de arquivo, onde Joel aparecia com um agasalho do Fluminense, com direito a escudo no peito e logotipo do patrocinador.)

Ainda no Globo Esporte, uma notícia muito interessante. O Real Madrid acabou de contratar o zagueiro luso-brasileiro Pepe, que jogava no FC Porto. A transação custou em torno de 30 milhões de euros (!!!). Um dirigente do Real diz que, há dois anos, quando o FC Porto comprou Pepe, ele foi oferecido também ao Real, por “apenas” 2 milhões de euros. Ou seja, o Real perdeu 28 milhões em dois anos. Aí o repórter pergunta: se Pepe já era um jogador promissor, e jovem, por que o Real não investiu esses “trocados”, 2 milhões de euros, na sua contratação? A resposta é reveladora: porque os diretores do clube madrilenho alegaram que zagueiro não vende camisa

Depois não entendem certas contratações, e porque o Real tem tanta dificuldade pra montar um time, mesmo contando com tantas estrelas.


Alguém lançou moda no Pan? Cuba lançou.

26 Julho 2007

Os atletas cubanos que vieram ao Rio de Janeiro disputar os Jogos Pan-Americanos foram responsáveis por uma nova moda que se espalha pela cidade. Se você é uma pessoa de alma esportista, e adoraria se vestir como um atleta profissional, essa oferta é para você. Se você não é uma pessoa assim, mas gosta de ajudar o seu semelhante, tudo bem, essa oferta pode ser pra você também.

Os atletas cubanos que vieram para o Pan-Americano estão fazendo uma queima de estoque e vendendo seus uniformes. O comércio anda a mil na vila do Pan. Cada uniforme está sendo vendido por 150 dólares. Para imaginar o que isso significa para um “hóspede” da Ilha-Prisão dos Castro, é bom lembrar que o salário mínimo cubano é de 225 pesos, o que equivale a 10 dólares. Exatamente: comprando um uniforme, você estará pagando um valor equivalente a 15 salários mínimos em Cuba.

(Nota: o link do Jornal O Dia dá essa informação, mas diz que 225 pesos representam 100 dólares. Eles estão errados. São 10 dólares mesmo, como podemos ver aqui É provável que um estagiário tenha visto o 10 da matéria original e “corrigido”, por não acreditar, pensar que era um erro, porque é impossível um “paraíso na Terra” com Cuba ser miserável a esse ponto…)

Uma competição como os Jogos Pan-Americanos traz muitas oportunidades para os atletas cubanos fugirem, ao menos um pouco, das desgraças que enfrentam na Castrolândia. Cada um se vira como pode. Se alguns vendem uniformes, outros estão fazendo comércio de charutos. No Brasil, uma caixa de legítimos cubanos custa por volta de 400 reais. Os atletas cubanos estão vendendo o mesmo produto por 200 reais.

Agasalhos e charutos dão um bom lucro para aqueles que serão obrigados a voltar para a prisão caribenha. Mas para outros, mais felizes, que não deixaram familiares lá servindo de reféns, há um caminho mais fácil: fugir dos carcereiros e se asilar no país onde a competição é disputada. Só nesse Pan, já foram quatro os que conquistaram a liberdade.

Sim, eu sei, muitos já devem estar dizendo que isso é um exagero, que as coisas em Cuba não são bem assim, e que há muita gente lá que é feliz, bem tratada e vive muito bem, obrigado. É verdade. Peço desculpas por ter generalizado. Se falamos da miséria, da pobreza, das coisas ruins, também temos que falar das coisas boas, da prosperidade que Cuba pode oferecer. Por exemplo, Aydano André Motta, colunista do Globo, conta que um grupo de integrantes da delegação cubana tem ido todas as noites a um bar da zona do sul do Rio. Em uma dessas noites, o grupo composto pelos ex-atletas Teofilo Stevenson, Regla Torres e Eric Lopez gastou pouco mais de mil reais (mil reais, 550 dólares, 55 salários mínimos cubanos).

Realmente, temos que admitir: Cuba oferece ótimas oportunidades de crescimento, para quem sabe alcança-las.


A carta de uma mãe

26 Julho 2007

“Aos governantes e à família brasileira,
Perdi o meu único filho.
Ninguém, a não ser outra mãe que tenha passado por semelhante tragédia, pode ter experimentado dor maior.
Mesmo sem ter sido dada qualquer publicidade à missa que ontem oferecemos à alma de meu filho, Luís Fernando Soares Zacchini, mais de cem pessoas compareceram. Em todos os olhos havia lágrimas. Lágrimas sinceras de dor, de saudade, de empatia. Meus olhos refletiam todos os prantos derramados por ele, por mim, por seu filhinho, por sua esposa, por todos parentes e amigos. Por todos os sacrificados na catástrofe do Aeroporto de Congonhas.
Há muito eu sabia que desastres aéreos iriam acontecer. Sabia que os vôos neste país não oferecem segurança no céu e na terra. Que no Brasil a voracidade de vender bilhetes aéreos superou o respeito à vida humana. A culpa é lançada sobre um número insuficiente de mal remunerados operadores aéreos ou sobre as condições das turbinas dos aviões. Um Governo alheio a vaias é responsável pelo desmonte de uma das mais respeitáveis e confiáveis empresas aéreas do mundo, a VARIG, em benefício da TAM, desde então, a principal provedora de bilhetes pagos pelo Governo. Que a opinião pública é desviada para supostos erros de bodes expiatórios, permitindo aos ambíguos incompetentes que nos governam continuarem sua ação impune. Que nossos aeroportos não têm condições de atender à crescente demanda de vôos cujo preço é o mais caro do mundo. Quando os usuários aguardam uma explicação, à falta de respeito ao cidadão juntam-se o escárnio e a cruel vulgaridade de uma ministra recomendando aos viajantes prejudicados que relaxem e gozem. Assuntos de alcova não condizentes com a reta postura moral e respeito exigidos no exercício de cargos públicos. Assessores do presidente deste país eximem-se da responsabilidade e do compromisso com a segurança de nosso povo exibindo gestos pornográficos. Gestos mais apropriados a bordéis do que a gabinetes presidenciais. Ao invés de se arrependerem de uma conduta chula, incompatível com a dignidade de um povo doce e amável como o brasileiro, ainda alardeiam indignação, único sentimento ao alcance dos indignos. Aqueles que deveriam comandar a responsabilidade pelo tráfego aéreo no Brasil nada fazem exceto conchavos. Aceitam as vantagens de um cargo sem sequer diferenciarem caixa preta de sucata. Tanto que oneraram e humilharam o país ao levar o material errado para ser examinado em Washington. Essas são as mesmas autoridades agraciadas com louvor e condecorações do Governo em nome do povo brasileiro, enquanto toda a nação, no auge de sofrimento, chorava a perda de seus filhos.
Tudo isto eu sabia. A mim, bastava-me minha dor, bastava meu pranto, bastava o sofrimento dos que me amam, dos que amaram meu filho. Nenhum choro ou lamento iria aumentar ou minorar tanta tristeza. Dores iguais ou maiores que a minha, de outras mães, dos pais, filhos e amigos dos mortos necessitam de consolo. A solidariedade e amor ao próximo obrigam-nos a esquecer a própria dor.
Não pensei, contudo, que teria de passar por mais um insulto: ouvir a falsidade de um presidente, sob a forma de ensaiadas e demagógicas palavras de conforto. Um texto certamente encomendado a um hábil redator, dirigido mais à opinião pública do que a nossos corações, ao nosso luto, às nossas vítimas. Palavras que soaram tão falsas quanto a forçada e patética tentativa que demonstrou ao simular uma lágrima. Não, francamente eu não merecia ter de me submeter a mais essa provação nem necessitava presenciar a estúpida cena: ver o chefe da nação sofismar um sofrimento que não compartilhava conosco.
Senhores governantes: há dias vejo o mundo através de lágrimas amargas mas verdadeiras. Confundem-se com as lágrimas sinceras e puras de todos os corações amigos. Há dias, da forma mais dolorosa possível, aprendi o que é o verdadeiro amor. O amor humano, o Amor Divino. O amor é inefável, o amor é um sentimento despojado de interesse, não recorre a histriônicas atitudes políticas.
Não jorra das bocas, flui do coração!
E que Deus nos abençoe!
Adi Maria Vasconcellos Soares
Porto Alegre, 21 de julho de 2007.”


Se Lula vai ao povo, o povo vaia Lula

26 Julho 2007

Depois de 72 horas, finalmente Lula se dirigiu aos seus súditos. E fez um pronunciamento vazio, inexpressivo, muito aquém daquilo que se esperava. É difícil entender como o presidente se expôs a esse desgaste. Em qualquer lugar do mundo, uma tragédia com as dimensões da que aconteceu em São Paulo exige a presença imediata das autoridades. O sumiço de Lula foi um sinal de fraqueza, que ele não poderia ter se permitido.

Muito se fala sobre as “deficiências intelectuais” de Lula. Mas burro não é ele, burros são aqueles que confundem falta de cultura com falta de habilidade política. Lula é um “burro”, no sentido intelectual, não sabe falar direito, não lê e se orgulha disso, etc, etc, etc. Mas é extremamente inteligente, no sentido político. Se não fosse, não teria jamais passado de São Bernardo do Campo. Se não fosse, não teria sobrevivido a quatro derrotas eleitorais, mantendo intacto o capital de “salvador da pátria”. Pensar que Lula é burro a ponto de não entender as implicações políticas de seu sumiço é subestima-lo demais.

Se Lula tomou essa atitude, foi por uma combinação de dois motivos. O primeiro é a sua personalidade centralizadora e imperial, que ignora totalmente qualquer fator que não lhe interesse e despreza a opinião dos “súditos”. Para Lula e seus acólitos, a opinião pública é algo que pode ser mudada à sua vontade, basta pra isso gastar o dinheiro certo no lugar certo. E não podemos negar que os episódios dos últimos anos lhe dão alguma razão nesse pensamento. Além disso, Lula perde pela impulsividade. Em situações não controladas, sob pressão, ele perde a cabeça, faz (e fala) o que não deve.

O segundo motivo é que Lula achou que essa era a opção que menos prejuízo lhe traria. E para entender os motivos que o levaram a isso, é preciso recuar uma semana. É preciso recuar até à simbólica sexta feira 13, e às vaias do Maracanã.

O que aconteceu naquela sexta-feira? Como a presença de um presidente que, a se acreditar nas pesquisas, tem um apoio superior a 70% pode causar uma reação daquelas? Mais que isso, como isso pode acontecer no estado em que Lula teve 89% dos votos no segundo turno das eleições? Qual o significado das vaias? Como elas surgiram?

A oposição se animou, vendo nisso o início de uma reação popular contra Lula, disparada pelo escândalo do Senado. O Planalto, por sua vez, joga para a galera a teoria conspiratória de que tudo não passou de uma “armação” do prefeito César Maia. Mas, racionalmente, tanto governo quanto oposição, e também os analistas, trabalham com quatro teorias principais:

a) A vaia foi totalmente espontânea, e significa um ponto de virada no governo Lula. Pela primeira vez, o povo manifestou o seu repúdio, e isso é algo que só tende a crescer daqui pra frente.

b) A vaia foi totalmente espontânea, mas não é algo que possa se expandir. Foi uma reação causada pelo recorte demográfico dos espectadores do Maracanã, a classe média que sempre representou a maior oposição ao governo – a “zelite” dos lulistas.

c) A vaia foi totalmente espontânea, mas não teve nada a ver com política. Foi uma manifestação da irreverência carioca que, diz-se, “vaia até minuto de silêncio”. Qualquer autoridade ali seria vaiada da mesma forma.

d) A vaia foi uma armação do prefeito César Maia e de grupos reacionários e golpistas que quiseram causar um constrangimento a um presidente amado pelo povo, e com aprovação quase unânime em todo o Brasil.

O governo tenta vender a opção “d” para os mais radicais, e a “c”, com os moderados. A “c” poderia ser uma opção bem razoável, se não fosse o detalhe dos aplausos a César Maia. Mas, como o povo brasileiro não é exatamente craque em lógica, ela pode pegar.

Pessoalmente, eu acredito na opção “b”. Mas como ter certeza que a “a” não é real?

Acredito que, de uma maneira ou de outra, pensamentos semelhantes passaram pela cabeça de Lula na sexta feira. Se não pela dele, com certeza pela dos seus assessores. E a verdade é que o presidente teve a pior reação possível, e a mais previsível, se analisarmos o seu caráter. Primeiro, se esquentou; depois, se acovardou.

Na hora em que a melhor reação seria a frieza, Lula se esquentou. Quando precisava de força, se omitiu. Não teve, por exemplo, o brio de Getúlio Vargas, que ao ser vaiado em situação semelhante, agradeceu as vaias e continuou o discurso. Por medo de uma vaia na hora mais importante da cerimônia, e da repercussão que isso poderia trazer, quebrou o protocolo e não fez a declaração que lhe cabia. Por medo da imagem da vaia, aceitou a imagem de ter fugido dela. É assim o ego de Lula: com medo de não ser unanimidade, aceita posar como covarde.

Depois disso, quando a melhor reação seria a de minimizar o episódio, dizendo algo banal como “isso faz parte da democracia”, Lula não resistiu a uma bravata, dizendo que era tão magnânimo que “iria continuar tratando o Rio da mesma forma que antes, não ia deixar isso influir em nada”. Foi pior a emenda que o soneto, pois mostrou que ele confunde o papel de um presidente da república com o de um tiranete qualquer, que decide quem deve receber as oferendas reais baseado nos agrados que os súditos fazem (ou não) ao monarca.

A verdade é que Lula se assustou. Acostumado a afagos, elogios, rapapés, essa foi a primeira vez em que Lula se viu exposto a uma situação desagradável. A criancinha gritando “o rei está nu” assustou Lula, que passou a temer ter o mesmo destino do monarca da fábula.

Uma segunda vaia seria demolidora. Enquanto ela não vier, a máquina de propaganda de Lula pode tentar vender as opções “c” e “d”. Mas uma segunda vaia, em condições semelhantes, ia dificultar muito esse trabalho. Por isso, Lula se entocou, evitando aparecer em público, enquanto seus propagandistas planejavam um evento de desagravo, onde Lula seria aplaudido e incensado, numa demonstração de força que apagaria o peso das vaias.

Usando um termo do futebol, como ele tanto gosta de fazer, digamos que a tragédia de terça feira o apanhou no contrapé e causou um torpor no governo. O plano imediato para recuperar a popularidade teria que ser abortado. E, pior, era uma situação daquelas em que NADA que Lula pudesse fazer o ajudaria a ganhar. O máximo a se conseguir, em termos estratégicos, seria reduzir as perdas.

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Na segunda feira, num encontro com empresários, Lula cunhou uma frase lapidar, uma daquelas sentenças de improviso que são típicas dele:

“Em certos cargos, a gente nunca diz aquilo que pensa. A gente faz as coisas quando pode, e quando não pode, a gente deixa como está pra ver como é que fica”.

Oficialmente, ele falava sobre Guido Mantega, e a função do Ministro da Fazenda. Provavelmente, ele tentou fazer um paralelo com a presidência, e talvez até com a questão das vaias, sugerindo que o melhor era não tocar no assunto, “deixar como está pra ver como fica”. Mas, na prática, ele fez um resumo perfeito do seu governo.

“Quando não pode, a gente deixa como está pra ver como é que fica”.

A pergunta é obrigatória. Foi isso que Lula fez, durante os cinco anos na presidência? Quando algo não se dobrava à sua vontade, quando havia algo que ele não podia resolver, quando alguma coisa o aborrecia… ele deixou como está pra ver como é que fica?

Quando a crise aérea cresceu nesses últimos dez meses, e se exigia uma ação do governo… ele deixou como está pra ver como é que fica?

Esse foi o vendaval que se abateu na cabeça de Lula na terça à noite, com a queda do Airbus da Tam. As vaias de sexta se somaram à frase infeliz da segunda, e se reforçavam agora com um fato novo, devastador. Na mesma noite, um “gabinete de crise” se reuniu no Planalto. Da boca pra fora, a reunião era para tratar do acidente. Na prática, serviu para tratar da imagem do governo.

E eles falharam nisso, falharam miseravelmente. Falharam por insensibilidade. Falharam por serem maquiavélicos de jardim de infância. Falharam por, mais uma vez, acreditar na idiotice do povo. A opção do “gabinete de crise” foi esconder o presidente, e deflagrar uma “operação abafa”, usar a máquina de propaganda para difundir uma versão que isentava o governo de qualquer responsabilidade. E, depois disso, Lula apareceria, triunfal, como o “pai” que traria consolo e segurança. Os trabalhos começaram logo. De um lado, a brigada política, dando declarações como a do ministro Mares Guia, que disse que “o presidente não tinha culpa, se alguém tem culpa, era quem pilotava o avião”. Por outro lado, a brigada da imprensa, espalhando desinformação e tentando isentar o governo a qualquer custo. Leiam, por exemplo, a coluna de Paulo Henrique Amorim nos dias 18 e 19, e vocês terão uma idéia do trabalho dessa turma. Adianto: é um texto muito, mas muito mais revoltante que qualquer “top top” ou “créu” que veio depois.

Com essas ações, e com o auxílio da imprensa, sempre simpática ao lulo-petismo, eles esperavam que o plano desse certo. Só que, pra isso, era preciso esconder Lula, para evitar alguma manifestação popular que não pudesse ser ocultada. No dia seguinte, sua agenda marcava um evento exatamente em Porto Alegre, no estado mais atingido pela tragédia. E Lula tremeu, mais uma vez. Cancelou o compromisso, por medo de outra vaia, ou de uma reação ainda mais agressiva. Dá pra imaginar o estrago de imagem causado por uma multidão recebendo o presidente aos gritos de “assassino”. Por isso, Lula se omitiu, uma vez mais. E deixou sua situação ainda mais ridícula. Já era suficientemente ruim ele não ir a São Paulo, manifestar seu pesar e acompanhar os trabalhos de resgate, e era pior ainda o fato dele sequer dar uma declaração oficial, se contentar com uma nota mínima e insípida, lida por um porta-voz idem. Mas a sua pusilanimidade, de cancelar um compromisso oficial em Porto Alegre, ao invés de aproveitar essa ocasião para ter a atitude esperada de um presidente… isso pegou muito mal.

Lula ainda fugiria uma vez mais. É inadmissível que ele não tenha ido ao enterro de Antônio Carlos Magalhães. Mas, também nessa hora, ele t(r)emeu. Apesar da sua popularidade no nordeste, ir a Salvador, enfrentar um povo revoltado com o acidente, e abalado com a morte de ACM, seria muito perigoso. Era melhor continuar em casa, “deixando como está pra ver como é que fica”.

Quando saiu a notícia do defeito no reverso do Airbus, assistimos àquela reação grotesca de Marco Aurélio Garcia. Era uma reação de festa, uma reação abjeta, nojenta, pelas circunstâncias em que acontecia. Mas, como ele cinicamente admitiu, era uma reação “privada”, de “satisfação” por ter vencido, ou ao menos achar isso. MAG apostou que, como o povo não sabe o que é um reverso, todos iam acreditar que era isso que tinha causado o acidente, logo o governo era inocente. O caminho estava pronto para um discurso de Lula, culpando a TAM, o piloto, o destino, dizendo alguma frase que ele (não) leu num livro, e ameaçando punir os responsáveis.

Só que quis o destino que uma câmera registrasse a festinha privada de MAG e seu companheiro. E o povo brasileiro assistiu, em horário nobre, ao nível baixo em que essa gente pode chegar. O clima “triunfal” para o pronunciamento de Lula foi para o espaço. Só ficou o clima de revolta, revolta com o acidente, revolta com os erros que levaram a ele, revolta com o desrespeito de MAG. E revolta, acima de tudo, contra o sumiço de Lula, que levou três dias pra sair da toca. “O que ele vai dizer agora?” era a pergunta a ser respondida.

E a montanha pariu um rato.

O pronunciamento de Lula foi um flop total. Um amontoado de clichês, de banalidades, de medidas corretas mas atrasadas com outras inteiramente inócuas. E nenhuma palavra sobre as responsabilidades pelo acidente. Nenhuma palavra sobre a sua responsabilidade pessoal, nem sequer sobre as responsabilidades de seus comandados. Nada, nada, nada.

Nem sequer uma metáfora, uma frase bonitinha. Lula nem parecia Lula.

E nem vou falar pelo que ele (não) disse para mim. Eu sou um opositor, um golpista, um dos tais “golpistas reacionários”. Não sou elite, mas sou “zelite”. Eu não voto em Lula. Não é a mim que ele tem que dar satisfações. De mim, e de outros como eu, ele não teria a menor simpatia, não importa o que dissesse agora. Não era para nós que Lula falava. Ele devia falar para os neutros, para aqueles que ainda esperavam alguma explicação, aqueles que queriam acreditar, bastando para isso que ouvissem algo onde pudessem se apoiar. E ele também falava para os seus. Ele falava para a sua base eleitoral, que acreditava nele, que ainda esperava a palavra do seu “messias”.

E, mais uma vez, ele falhou. Quanto maior o mito, maior a decepção. Lula falhou, sumindo por três dias, e falhou não ressuscitando ao final deles. Ainda é cedo para mensurar o tamanho dessa falha, mas que ela aconteceu, isso é indubitável.

A maneira de tentar corrigir isso será providenciando eventos controlados, em que Lula possa ser aplaudido, idolatrado, carregado ao colo. Mas, a partir de agora, sempre haverá o medo. A qualquer momento, uma vaia pode surgir. Em qualquer hora, em qualquer lugar.

(Em tempo: Claudio Humberto publica uma nota que pode explicar alguns dos motivos pelos quais Lula pareceu tão “embaçado”. Segundo um informante, Lula teria preparado um discurso onde atacava duramente a oposição e a “mídia conservadora”, que estariam tentando politizar em cima do acidente. E foi José Sarney quem, na última hora, convenceu o presidente a suavizar o tom. Ou seja, Lula teria ensaiado um personagem, indignado e incendiário, para na hora da apresentação, encarnar outro, compungido e controlado.)

PS: 9 dias. Waldir Pires só hoje deixou de ser Ministro da Defesa. Milton Zuanazzi ainda é diretor da ANAC. José Carlos Pires ainda é presidente da Infraero. Até quando?


Pra variar, César Maia pautando a imprensa…

24 Julho 2007

Desde que começou com essa história de ex-blog, o prefeito César Maia passou a fazer a imprensa correr atrás das informações que ele vai soltando no boletim.

Essa notinha de hoje, pra mim, não é muito surpresa. Pelo que eu conheço das partes envolvidas na história, já esperava algo assim. E nem preciso pensar muito pra dar um palpite sobre quem é o “alto personagem do governo” citado por César.

FRAUDE VERGONHOSA EM RELAÇÃO A UM DOS REVERSOS DA TURBINA!

Transcrevo -mudando os termos para evitar identificação- informação recebida de um alto dirigente da TAM:

- Sobre a informação de um diretor da TAM acerca de um dos reversos da turbina, que foi divulgada pelo Jornal Nacional da TV Globo e que tanta polêmica gerou dando uma justificativa ao governo, posso afirmar -pois sou testemunha- que um alto personagem do governo contatou a alta direção da empresa (TAM) dizendo que ou eles davam uma boa saída ao governo, ou ele (alto personagem), garantia que baixada a poeira, o governo iria quebrar a TAM. Foi um problema, pois admitir qualquer coisa dessas seria assumir o seguro dos passageiros sem seguradora, o que levaria a uma grave situação financeira. A saída encontrada foi dar uma explicação que do ponto de vista técnico e do mercado segurador, não muda nada. O governo com isso teria garantida uma saída “honrosa” e a TAM ficaria coberta, pois o não uso eventual de um dos reversos é fato regular. Afirmo mais: o top, top, top do senhor Marco Aurélio Garcia, não foi pela surpresa. Ele sabia que viria a matéria e simplesmente fez os gestos como se confirma uma operação. Tradução do top, top: – É isso aí. Fu…….mos, eles. 

Vamos esperar, pra ver o que isso vai render.


Eu teria um desgosto profundo…

24 Julho 2007

Dizem que os jogadores do Flamengo estão muito felizes. A diretoria prometeu pagar os salários atrasados, graças à economia que vai fazer no próximo jogo. Como? Que economia? A economia que vão fazer coma iluminação do estádio, ora. Se cada torcedor levar a sua lanterna, nem precisa acender refletores…

(Retirado do Bola nas Costas , site do Globo.com)

E, falando sério, se eu fosse rubro-negro (bate na madeira!) ia fazer o possível para que esse cara nunca mais vestisse a camisa do meu time… Já é difícil aguentar jogador mau caráter. Agora, mau caráter e burro, aí já é demais.

PS: Está no Globo Esporte: “Torcida do Timão usará roupa de presidiário” . Realmente, tem piada que já nasce pronta…


O maravilhoso mundo de Weber

24 Julho 2007

“The flight over Morocco allowed me a new understanding of St.-Exupéry’s
words. I believe I finally understood what The Little Prince saw. He witnessed pure life which we no longer have time to appreciate.”

(Bernard Weber, inspirando candidatas a miss around the world)

“I started a joke…”

Era uma vez um aventureiro suíço-canadense chamado Bernard Weber. Um dia, ele teve uma idéia: inventar uma competição estilo Big Brother que elegeria as “sete maravilhas do mundo moderno”. Como “Heritage Big Brother” era um nome muito feio, era necessária uma marca mais adequada. Assim nasceu a “New7Wonders Foundation”, que seria responsável pelo “New7Wonders Project”.

Durante algum tempo, a N7W, a Fundação, o Projeto, seu líder, ficaram todos no merecido esquecimento. Até que, em 2006, com toda a pompa e
circunstância, uma conferência em Zurique anunciou ao mundo (que não
esperava ansiosamente por isso) quem eram os 21 finalistas do “N7W Project”.

O mundo, acostumado a ver um desses reality-shows por semana, tratou a
notícia como a piada que era. Uma jogada de marketing, que visava dois
objetivos principais: trazer fama e fortuna à Fundação N7W (e a seus donos), usando para isso as imagens de alguns cartões-postais mundiais.

Como levar a sério um projeto que mistura no mesmo saco coisas díspares como o Taj Mahal e o Coliseu Romano, o Cristo Redentor e as estátuas da Ilha de Páscoa, o Templo de Kiyomizu e Stonehenge? O que pensar de um projeto que se propõe a escolher algo numa votação por SMS e internet (!!!!), com todo o “rigor científico” que pode se esperar de uma “eleição” como essa?

Um pouco ao redor do mundo, todos riram da piada de Weber. A notícia foi
dada, como um fait divers curioso, uma bobagem divertida. Em pouco tempo,
ela foi substituída por piadas novas, e essa foi relegada ao esquecimento.

“…but I didn’t see that the joke was on me.”

Até que, um ano e meio depois, um certo país do hemisfério sul descobriu
essa história. E, pior, levou ela a sério!!!! “Eles acreditaram!” Num efeito
retardado (duplo sentido incluído), o povo descobriu que, horror dos
horrores, o Brazil estava sendo vilipendiado, incompreendido e trapaceado.
Afinal, como pode o Cristo, a coisa mais bela do universo (e tudo o mais)
ficar fora das sete vencedoras desse concurso tão importante? Só por trapaça dos porcos imperialistas, sempre querendo roubar os nossos tesouros! Assim, tomada de um furor uterino-patriota, a nação se uniu para impedir esse crime de lesa-majestade.

“Vote no Cristo”, era o mantra que se ouvia em todos os cantos. “Você já
votou no Cristo hoje?”, perguntavam os fiscais, caçadores de replicantes
anti-patriotas. Sou bravo, sou forte, in Christ I vote. Como você ainda não
votou? Como você não entende a importância da luta? A cruz no nome do Cristo não marcastes? Em outras maravilhas estranhas votastes? Brasileiro não sois, ó vil traidor da pátria dos caros bois!

Durante as últimas semanas, o povo viveu um clima de “Criança-Esperança
meets Copa do Mundo”. Vamos dar as mãos, vamos lutar, si, si puede. Fé no Cristo e pau nos gringos. Tem que dar certo. Com a sua ajuda, nós vamos
conseguir. Eu sou brasileiro, e não desisto nunca. Sua participação é muito importante. Juntos chegaremos lá. A maravilha do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa. O povo unido jamais será vencido. Guenta que é penta, Brasil! Deus é brasileiro, o Cristo é maravilha. Deus é dez, Romário é onze, o Cristo é sete.

No dia 7, o êxtase: conseguimos!!!! Agora, sim, esse país vai pra frente. O
spam cibernético deu certo, e ganhamos o diplominha do tio Bernard. Demos
uma lição nesses gringos! A partir de agora, o Brasil tem uma maravilha. Com
uns 2000 anos de atraso, mas nem tudo pode ser perfeito. Escutaram, seus
gregos, seus egiteiros, seus romanos? Nós temos! O Brasil é grande, é o país do futuro. Existem sete maravilhas no mundo encantado do tio Bernard, e uma delas é nossa! Vê lá se os americanos ou os franceses tem isso? Ih, ih, ih, vão ter que me engolir!

É muito, muito patético. Por todos os ângulos que se olhe.

(E é mais patético ainda porque, sejamos sinceros, todos nós sabemos que se o resultado fosse outro, grande parte daqueles que me xingam por essa
opinião estariam dizendo coisas parecidas… “Estão verdes, senhor”.)

Dizem que, ao saber do resultado, a Estátua da Liberdade tentou atear fogo
às vestes, a Torre de Pisa tremeu nas bases, e os moais da Ilha da Páscoa
ficaram petrificados de surpresa com a derrota… Mas franceses, americanos, gregos, alemães, esses reprimiram um bocejo, se é que ficaram sabendo do resultado.

Nessa história toda, os únicos que tem motivo de orgulho são os egípcios.
Assim que o Sr. Weber começou a sua tournée caça-níqueis, o governo egípcio gritou “alto lá”, ou algo equivalente em árabe, e acabou com a festa.
Proibiram o “aventureiro” de usar as imagens das Pirâmides, e exigiram que
elas fossem retiradas dessa pantomima. E não é que Mr. Bernard “óleo-de-peroba” Weber ainda capitalizou isso, dizendo que as Pirâmides “passariam a ser hors concours”, devido ao seu “indiscutível status”? Mr. Weber mostra ter vaga fácil como suplente de senador num certo país sul-americano…

E uma coisa, não posso negar, foi perfeita no timing dessa (hahaha) votação. O resultado foi divulgado no cabalístico 07/07/07, o mesmo dia reservado aos shows do Live Earth. Dois eventos que tem muito mais em comum do que pode parecer. Esse ano, o 7 de julho teve uma cara de 1 de abril…

Ah, para aqueles que discordam de tudo isso, que acham uma coisa linda tudo isso, e que só pessoas amargas poderiam pensar diferente, etc, etc, uma notícia excelente: isso foi só o começo. Inspirado pelo suce$$o da
iniciativa, o intrépido Weber já anuncia uma nova enrol… competição
maravilhosa. Agora, trata-se de eleger as 7 maravilhas naturais do mundo.
Corram ao site! Votem! Não esperem um ano e meio para saber de algo tão
cool! As Cataratas do Iguaçu precisam de você! O resultado será divulgado… no dia 08/08/08. Ah, que genial. Como são espirituosos! Uh, uh, Falls Iguassu!

PS: O comentário abaixo, postado no blog de um conceituado profissional
ligado ao turismo que se atreveu a dizer porque NÃO votaria no Cristo, é uma prova cabal do nível de alguns integrantes da “brigada”… (os asteriscos são meus, claro, o comentário original é mais no vernáculo mesmo)

“aE SEUS FILHOS D AP*** MESMO NÃO CONCORDANDO QUE O CRISTO ESTÁ ENTRE OS 7 VOCÊS TINHAM QUE TER VOTADO. VOCÊS ACHAM O QUE SE UM ARGENTINO TIVESSE COMO OPÇÃO PARA VOT A CASA ROSADA E AS PIRÃMIDES DO EGITO ELE VOTARIA EM QUEM ?? ÓBVIO QUE NA CASA ROSADA, LA BOMBONERA OU EM QUALQUER OUTRA COISA QUE ESTEJA
EM SOLO ARGENTINO, ENQUANTO ALGUNS “FALSOS FILÓSOFOS” E VIAJANTES DE INTERNET FICAM AÍ FALANDO BESTEIRA DIZENDO ISSO E AQUILO DO CRISTO E NÃO VOTANDO.NÃO INTERESSA SE A MURALHA DA CHINA, MACHU PICHU É MAIS BONITO, TEM MAIS VALOR, POUCO IMPORTA, POIS NENHUM DELES É NOSSO É DOS OUTROS.PAREM COM ESS ELANCE DE OLHAR PRO JARDIM DO VIZINHO E ACHAR QUE O DELE É MELHOR E MAIS
CUIDADO, OU TALVEZ MESMO QUE SEJA, CUIDE E VALORIZE O SEU.”

Ou seja:

1) O critério de escolha é puramente patriota – ou pelo menos o que essa
gente pensa ser “patriotismo”. Se vc é argentino, vota na Casa Rosada, se é chinês nas Muralhas, se é brasileiro no Cristo. E, acredite, eles juram que
isso é “democracia”.
2) “Não interessa” que os outros monumentos sejam “mais bonitos”, interessa o que é “nosso”. O que importa não é ser o melhor, é vencer, a qualquer custo. Exatamente como em outros campos.
3) Resumindo: quem não vota no Cristo é um “filho d ap***” (sic).
4) CQD.


Cronica de uma tragédia anunciada

22 Julho 2007

Na terça-feira à noite, cheguei em casa um pouco mais cedo do que o costume, e sentei no computador. A idéia era acabar de escrever dois textos, que estavam pela metade, e que eu pretendia enviar a uma lista de discussão onde participo. Um era sobre a Copa América, o outro sobre o caos do sistema aéreo brasileiro.

Alguns minutos depois das 19 horas, ouvi a música do Plantão da Globo, na televisão da cozinha. A reação foi a mais humana possível: levantar e ir conferir o motivo. Um incêndio, que William Bonner descrevia como sendo “num hangar da Tam, no aeroporto de Congonhas”.

Meu primeiro impulso, confesso, foi o de cogitar a hipótese de uma sabotagem. Afinal, poucas horas antes, um curto-circuito havia causado um incêndio aqui no RJ, no Santos Dumont. Dois casos no mesmo dia? Mas logo comecei a gelar, percebendo que havia coisa muito maior ali.

Bonner continuava falando num “hangar”, e descrevendo as redondezas, dizendo que o prédio ficava “do outro lado da Avenida Washington Luiz”. Foi meu gelo número dois. Aquilo *não era* um hangar, em hipótese alguma. Hangares servem pra guardar aviões. Hangares ficam *dentro* de aeroportos. Hangares não ficam *do outro lado* de uma avenida movimentada. Como você levaria um avião para um hangar situado desse jeito? Com um flanelinha parando o trânsito e dizendo “pode ví, dotô?”.

Aquilo não era um hangar. Mas era visível o símbolo da Tam, ali no chão. Aquilo era uma loja. E veio o gelo número três, Eu e meu pai nos olhamos, porque ambos perceberam ao mesmo tempo. Aquilo vermelho era uma cauda de avião. Ou William Bonner não tinha percebido isso, ou tentava poupar os espectadores, permitir que eles fossem se acostumando aos poucos com a idéia.

Se aquilo pegando fogo não era um hangar, se aquilo no chão era uma cauda de avião… Então só havia uma explicação. Gelo numero quatro, um suspiro profundo, e um nó na garganta. Havia acontecido aquilo que muitos temiam.

“Aquilo é uma cauda de Airbus”.
“Sim. É.”
“E, pelo jeito, deve ser um 310.”
“Ou o 320. PQP…”

Quando finalmente Bonner admitiu que aquilo podia ser um avião, eu já estava andando pela casa, estarrecido. Ele dizia que “havia uma possibilidade de um avião estar dentro do hangar”, e uma informação não confirmada sobre ser uma “pequena aeronave”, que não se sabia “se tinha alguém dentro”. Agora, pensando retrospectivamente, e pelo que conheço dele, creio que foi proposital. Uma espécie de “o gato subiu no telhado”. Mas na hora me revoltei. “C***”, pensei, “ele não vê que aquela p* é um Airbus?! Tem 200 pessoas ali dentro. Fora as que estivessem na loja”.
Em nenhum momento me passou pela cabeça a hipótese de haver algum
sobrevivente. Bonner podia falar o que quisesse, e a essa hora eu já não o
ouvia, mas as imagens eram claras demais: não dava pra se iludir.

Já bastava a ilusão em que vínhamos vivendo nos últimos nove meses, fingindo que isso não era questão de tempo. Durante nove meses, assistimos a um filme de terror, onde todos sabíamos o que ia acontecer, só não sabíamos quando e com quem. Da maneira como estavam brincando com o caso, da maneira como a bomba-relógio vinha sendo armada, o resultado só podia ser um.

E finalmente aconteceu.

Eu fiquei muito abalado com isso. Muito mesmo. Claro, o fato de ser algo ligado a aviação explica isso em parte. É uma área que faz parte da minha vida. Mas nunca fiquei tão abalado com um “acidente”. E esse é o maior motivo: isso não foi um acidente.

Foi um assassinato.

Durante um ano, o governo tratou a situação do sistema aéreo brasileiro com uma irresponsabilidade flagrante. O preço foi esse. O Brasil inteiro viu ao vivo, na televisão, o resultado das ações do governo federal. O Brasil inteiro viu a agonia de 200 pessoas, 200 inocentes mortos por culpa dessa turma que comanda o país. Nunca antes neste país tantos morreram pela irresponsabilidade de alguns.

Eu disse um ano? Na verdade, um pouco mais que isso. Já tive oportunidade de escrever aqui sobre isso. A crise começou quando o PT, sempre atrás de novas maneiras de encaixar seus afilhados, tirou o controle aéreo das mãos do DAC, e criou a ANAC. A idéia, em si, até poderia não ser tão ruim. Mas se revelou desastrosa quando a ANAC virou um cabide de empregos de membros do partido, muitos deles sem a menor experiência no setor.

O setor aéreo se estruturava em três pilares: o DAC, comandando a parte técnica, o Ministério da Aeronáutica, como superior hierárquico e ligação com a presidência, e a Infraero, responsável pelos aeroportos. O que o PT fez com esses pilares? Destruiu o DAC, acabou com o Ministério da Aeronáutica e partidarizou a Infraero.

Na sua estratégia de enfraquecer os militares, Lula I acabou com os Ministérios das Forças Armadas, para coloca-los subordinados a um Ministério da Defesa, comandado por um civil. Mais uma vez, isso poderia não ser tão ruim, se as coisas fossem feitas de outra maneira. O governo do PT, sempre competente na sua tática de meias-verdades, faz alarde de que “no mundo inteiro é assim”. Talvez. Mas desde que a transição seja bem feita, que o Ministro da Defesa seja um civil respeitado, e haja um clima de “neutralidade” nesse comando.

O que foi feito aqui? Exatamente o contrário. Os militares foram humilhados, a introdução do Ministério da Defesa tratada como um “avanço democrático”, e o comando entregue a amadores. Primeiro, ao vice presidente José Alencar, pra tentar dar um “brinquedinho” pra ele, e ver se ele parava de se meter em outras coisas. Depois, Waldir Pires, uma figura que remete a 1964, e que temno currículo vários e vários problemas com os militares.

Na criação da ANAC, o padrão se repetiu. Agora sim, o Brasil está livre do “ranço militar” do DAC, e tem um “comando profissional”. Para presidir a ANAC, o sociólogo Milton Zuanazzi, protegido de Dilma Roussef, e sem nenhuma experiência de aviação. Na vice presidência, a advogada Denise Abreu, também sem nenhuma credencial aérea, mas com o apadrinhamento de José Dirceu.

E a Infraero? Antes, o companheiro Carlos Wilson, deputado do PT de Pernambuco. Agora, um brigadeiro, também ligado ao PT, e com pouquíssimo conhecimento de aviação civil.

Ou seja, de todos os lados, o mesmo padrão: incompetência, leviandade, amadorismo.

“Eu já dei 48 horas para a situação se resolver.” (Lula, em outubro de 2006)

“Não existe caos. O que existe é uma Lei de Murphy, onde tudo que pode dar errado está dando.” (Walfrido Mares Guia, à época ministro do turismo)

“Crise aérea? Isso não existe hoje. Existiu de 1995 a 2003. Hoje, as empresas aéreas não sentem a crise, pelo contrário, estão todas em franco crescimento.” (Milton Zuanazzi, diretor da ANAC)

“Relaxa e goza…” (Marta Suplicy, atual ministra do turismo)

“Os problemas aéreos são causados pelo crescimento do país, é um surto de prosperidade.” (Guido Mantega, ministro da economia)

Enquanto isso, o caos continuava. Depois de Guido Mantega dizer que o povo devia agradecer a Lula pelo caos, porque isso era causado pela prosperidade que ele trouxe ao país, fiquei com muita pena de todos esses países pobres, como a França, a Espanha, a Inglaterra, os EUA, o Canadá, todos esses países miseráveis que não conseguem sequer chegar a esse nível de prosperidade indispensável para obter um caos tão… caótico.

A última desculpa era a de que os atrasos estavam sendo causados pelas “condições meteorólogicas”. O nevoeiro em São Paulo é muito grande, e isso faz com que os aeroportos dessa cidade tenham que ser fechados frequentemente, o que causa um “efeito cascata” no resto do país..

Claro, essa é uma desculpa perfeitamente válida. Todos nós entendemos que o nevoeiro paulista é especial, e não é justo comparar São Paulo com cidades que não sabem o que é um nevoeiro desses, como Londres, Nova York ou Paris, onde o sol brilha 364 dias por ano. Os americanos então, realmente são uns chorões. Claro que o sistema deles funciona melhor que o nosso! Afinal, o que eles enfrentam de tão ruim? Só uma nevezinha de 10 cm de altura, vez por outra, um ou outro furacão. Ou seja, nada, quando comparado ao nevoeiro de São Paulo… Efeito cascata de verdade.

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Primeiro, passamos pelo desmantelamento comercial, com a crise da Varig. Depois, foi o acidente da Gol, e as tentativas desesperadas de jogar a culpa pra cima dos americanos. E depois, nove meses de espera, nove meses de suspense, até o acidente previsto por todos. E em Congonhas, claro, o símbolo maior de tudo que está errado no ar brasileiro.

Congonhas, como o Santos Dumont, é um aeroporto que não deveria existir, pelo menos não da maneira que existe. Congonhas é ainda pior, porque não é cercado pela Baía de Guanabara. A única justificativa aceitável para defender o funcionamento de Congonhas é o tráfego executivo. É economicamente inviável usar Guarulhos para fazer um “bate-e-volta” em S. Paulo, para ir a uma reunião, por exemplo. Então, é válido que Congonhas tenha vôos de Ponte Aérea e para um ou outro destino do interior de SP. E sempre com aviões de pequeno porte, adequados às suas dimensões e aos seus problemas de localização. Só. Nada além disso.

Mas Congonhas tem um diferencial comercial muito bom: ser no Centro de SP, e evitar que o passageiro tenha de percorrer os 40 km de Guarulhos até à Av. Paulista. Por isso, as companhias sempre quiseram voar mais para lá. Não vou contar a história inteira agora, como Congonhas inflou seus vôos a um número absurdo, mas é uma história que remonta ao governo FHC e piora muito, mas muito mesmo, nos últimos cinco anos.

O que importa é que, atualmente, Congonhas está hiper-saturado. Congonhas, aquele aeroporto que só devia ter vôos regionais, se transformou no maior hub da maior cidade da América do Sul! Há coisas absurdas acontecendo ali, escalas, conexões, que nunca poderiam existir. Os fatores foram se somando, se empilhando numa sequencia lógica para quem olhava com atenção. Um aeroporto no meio da cidade, com uma pista curtíssima. Cada vez mais aviões congestionando esse aeroporto. O controle aéreo, com todos os problemas que vínhamos observando desde o ano passado. E a reforma criminosa que foi feita nesse aeroporto.

Criminosa. A palavra é forte, mas não há outra. A pista de Congonhas (muito curta e sem área de escape, volto a lembrar) é um sabão. Milhões de reais foram gastos em “obras de infra-estrutura” no aeroporto. 90% desse dinheiro foi gasto em cosmética. O resto não deu pra fazer a obra da pista como devia ser. Ficou faltando o “grooving”, ranhuras na pista que ajudam a frear o avião, principalmente em pista molhada. Congonhas NÃO PODIA ser liberada para uso sem o “grooving”. É criminoso fazer isso numa pista que, pelas suas condições, já é complicada em dias de chuva. E é mais criminoso ainda colocar um A320, com 180 pessoas a bordo, para pousar em Congonhas com chuva e sem grooving. Ah, duzentos aviões iguais pousaram sem acontecer isso. É. Mas um dia a sorte acaba.

A pista não podia ser liberada. Isso só aconteceu por pressão das companhias, que nem queriam cogitar a hipótese de ficar sem Congonhas durante as férias de julho. A justificativa oficial da Infraero para a liberação é daquelas que seria cômica se não fosse trágica: a verba para o “grooving” só ficaria disponível em setembro, e até lá dá pra usar a pista assim, “porque estamos no inverno, e quase não chove nessa época”.

Sim. Relaxa, goza e reza pra São Pedro.

Por todos esses motivos, o meio da aviação estava esperando por uma tragédia, e acreditando que ela iria acontecer em Congonhas. Tivemos vários avisos. Só esse ano, foram nove aviões que derraparam e/ou bateram na pista, na hora do pouso. Um dia antes da tragédia de terça, um avião menor, da Pantanal, quase causou um acidente sério. Muitos pilotos falavam abertamente do medo que sentiam em pousar naquela pista. Entre os pilotos, corria o apelido de “holiday on ice”, quando falavam sobre o que era pousar em Congonhas com chuva. E dezenas e dezenas de sustos menores, de pousos abortados, de freadas no limite da pista.

Um dia isso ia acontecer. Foi preciso que morressem 200 pessoas para que todos soubessem, exatamente, como estão os ares do Brasil, e como está a situação de Congonhas.

Eu estou muito, muito revoltado com tudo isso. Já chorei diversas vezes, e ainda não consigo falar sobre o assunto sem a voz ficar embargada. Foram duzentas vidas interrompidas, de uma maneira cruel. Vidas que não precisavam ter terminado agora, não precisavam ter acabado dessa forma.

Eu não consegui dormir direito na primeira noite. E, francamente, me custa imaginar como podem dormir aqueles que carregam o peso dessas mortes na consciência – se é que eles sabem o que é isso.

PS: 3 dias. 72 horas. E o presidente não faz UMA declaração ao país. Até o Papa já se manifestou. Ele não.

PPS: 3 dias. 72 horas. Waldir Pires ainda é Ministro da Defesa. Milton Zuanazzi ainda é diretor-chefe da ANAC. José Carlos Pereira ainda é presidente da Infraero. Até quando? Que país é esse?!


O mundo como idéia

13 Julho 2007

Naqueles tempos, homens e elfos viviam em harmonia na Terra Média. Apesar de suas diferenças, eram todos filhos de Iluvatar, criados na mesma melodia, amantes da mesma beleza. Até que veio a Era de Sauron. Os orcs se espalharam por todos os lados. A escuridão cobriu aquelas terras, outrora brilhantes.

Os homens se dividiram. Alguns deles, levados pela cobiça, pela atração do poder, se uniram às forças de Sauron. O mal se espalhava cada vez mais. A beleza desaparecia, e só ficava em seu lugar a sombra negra que se estendia a partir de Mordor.

Um a um, os Elfos caíram. Aquele mundo não lhes servia mais. Eles estavam dispostos a combater os orcs. Mas, quando os próprios homens se aliaram ao mal, os Elfos sentiram que estavam lutando uma batalha perdida. Estavam lutando por uma terra que não era a deles, em nome de seus donos que não queriam lutar.

Um a um, os Elfos foram se retirando. Alguns embarcaram nos Portos Cinzentos, partindo de volta para uma terra onde o bom e o belo ainda dominam o ambiente. Outros, mais esperançosos, se retiraram para Valfenda, à espera de tempos melhores.

Os Elfos de Valfenda não eram confiantes a ponto de esperar que Sauron fosse embora sem luta. O que eles chamavam de “tempos melhores”, na verdade, eram tempos ainda piores. Aquela hora em que tudo ficasse tão negro, mas tão negro, que fizesse pelo menos alguns dos homens acordarem da letargia e recuperarem a vontade de lutar. Aquela hora em que alguns homens percebessem que ainda não eram orcs, que ainda tinham a capacidade humana de combater o mal.

Nessa hora, Elfos e algum Mago perdido que “nunca deixasse de acreditar” estariam a postos, e saberiam cumprir o seu dever. E, do outro lado, haveria homens e hobbits, cada um fazendo a sua parte na luta contra o Mal, por menor que ela possa parecer.

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Depois de um ano sabático, que se estendeu por quase dois, declaro reaberto o QsQ. :-)

 

Os bons vi sempre passar

No mundo graves tormentos;

E para mais me espantar,

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

 

Cuidando alcançar assim

O bem tão mal ordenado,

Fui mau, mas fui castigado.

Assim que, só para mim,

Anda o mundo concertado.